A Tamara Klink fez um vídeo mobilizando seus leitores a não comprarem mais o Bom Dia, Inverno, alegando questões ambientais. Foi nesse clima amistoso e com muito carinho dos fãs (kkkk) que eu concluí a leitura.
Tamara Klink, a pessoa mais jovem da América Latina a cruzar o Atlântico sozinha, passou oito meses em um veleiro preso ao mar congelado da Groenlândia. É a partir dessa experiência que Bom Dia, Inverno se constrói: memórias da viagem misturadas a reflexões sobre liberdade, medo, solidão, feminilidade, natureza e sobre o que significa estar consigo mesma por tanto tempo.
Eu acho a Tamara uma pessoa muito inspiradora e corajosa, então estava bastante ansiosa para ler o livro. Pra mim, a parte mais interessante é quando ela fala sobre a solidão. Não sobre as dificuldades de estar sozinha, mas sobre a necessidade de experimentar a própria companhia, especialmente para nós, mulheres.
Existe uma diferença enorme entre a solidão que nos é imposta e aquela que escolhemos. Tamara fala dessa segunda como uma possibilidade de liberdade: estar longe dos outros para descobrir quem somos quando não precisamos desempenhar nenhum papel, atender nenhuma expectativa ou cuidar de alguém.
Essa é a parte que mais me comoveu porque quando ela fala sobre estar sozinha, não está simplesmente defendendo o isolamento. Ela está falando sobre a possibilidade de existir sem estar constantemente sendo observada, definida ou validada.
“Parei de tentar parecer alguma coisa para, simplesmente, ser.”
“Sem outros humanos, não sou mais o Outro. Experimento como é ser universal.”
A ideia de deixar de ser “o Outro” é especialmente interessante quando ela relaciona isso ao fato de ser mulher. Em terra, o gênero está o tempo inteiro atravessando a nossa experiência: os perigos, os medos, a aparência, a maneira como ocupamos os espaços, o quanto podemos ou não fazer sozinhas. No meio do mar, longe de tudo isso, Tamara experimenta uma espécie de suspensão dessas expectativas.
“Meu gênero não é mais um multiplicador de perigos.”
O feminismo da Tamara, no entanto, não é algo que me impacta profundamente (e por isso eu não fiquei surpresa com a polêmica). Ainda assim, acho interessante poder viver por meio do olhar de alguém que experimentou o mundo de uma maneira tão radicalmente diferente da minha.
É ai que o livro funcionou pra mim: a possibilidade de enxergar coisas maravilhosas e terríveis acontecendo ao mesmo tempo. A experiência dela é extraordinária, mas não é romantizada o tempo inteiro. Há medo, cansaço, solidão, desconforto e dúvidas. A escrita da Tamara é envolvente o suficiente para que a gente consiga se aproximar um pouco dessa experiência, mesmo sabendo que nunca poderemos realmente saber como é passar oito meses sozinha em um veleiro cercada pelo gelo.
“Experimentem ficar sozinhas! Tentem!”
Ela defende uma solidão escolhida, voluntária, diferente daquela em que nos sentimos abandonadas e carentes mesmo estando cercadas de pessoas. Uma solidão que abriga, liberta e aproxima a gente de si mesma. Talvez essa seja a grande viagem de Bom Dia, Inverno: não chegar a algum lugar, mas descobrir quem somos quando, finalmente, ninguém está olhando.
E isso é uma coisa que eu gostaria de experimentar também.
SINOPSE
Durante oito meses, Tamara Klink viveu sozinha num pequeno veleiro preso no mar congelado do Ártico Groenlandês. Depois de uma longa preparação e de atravessar o oceano desviando de icebergs, ela ancorou em um fiorde escuro sem saber se estava pronta para o que iria encontrar.
O que acontece quando ficamos sozinhos, sem ter para quem sorrir? Quando passamos longos dias sem ver o Sol? Quando somos o ser vivo menos apto a sobreviver no lugar onde estamos?
Depois de se tornar a pessoa mais jovem da América Latina a cruzar o Atlântico em solitário, a navegadora e escritora Tamara Klink se lançou numa nova navegação: em vez de atravessar o espaço, dessa vez atravessaria o tempo. Isolada em um fiorde na Groenlândia na época mais fria do ano, ela pôde observar o inverno polar transformar o mar em terra e os dias em noites infinitas.
Em Bom dia, inverno, os leitores são convidados a conhecer de perto os perigos e as alegrias dessa viagem extremamente arriscada. Nessa experiência de isolamento radical, em meio a auroras boreais e visitas inesperadas de raposas, focas e outros animais selvagens, o silêncio se torna palco para reflexões profundas sobre a liberdade, a cultura, o futuro do planeta e o modo como escolhemos viver.
BOM DIA, INVERNO
Início da leitura: 24 de junho de 2026
Término da leitura: 09 de agosto de 2026
Autor: Tamara Klink
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2026
Número de páginas: 256
Gênero: Autobiografia
