ASSISTI O MEU FILME FAVORITO
05.11.2026

— Mas ele ama ela, apesar de não ter tempo de conversar tanto pelo telefone — você disse depois de me contar que o seu amigo casado estava trocando nudes com uma colega de trabalho.
— Ama mesmo? — perguntei, mordendo a bochecha.
— Acho que sim — você respondeu tentando parecer neutro, mas julgando a situação.
— Não tem tempo de falar com a esposa no telefone, mas tem para trocar nudes com outra pessoa?
Silêncio.

Lembrei disso e fui assistir o meu filme favorito. Esse é o segundo episódio da série coisas que eu faço para te esquecer.

O meu filme favorito é Infidelidade (2002). Juro, não estou inventando, assisti umas dez vezes (eu gosto muito das coisas que eu gosto, lembra?). Connie Sumner vive uma vida comum no subúrbio com o marido Edward e o filho Charlie. Por acaso, sua vida cruza com o charmoso Paul Martel, um jovem francês que muda a vida da família para sempre.

Eu gosto da história, mas a minha parte favorita é a fotografia. Tudo começa com uma ventania. Em Palmas venta bastante, ou ventava pelo menos, o clima tá estranho. Lembra quando eu te contava as coisas daqui e você se virava na cama para me ouvir?
Enfim, nessa ventania doida, Paul e Connie se esbarram, o que leva a um machucado no joelho, o que leva a ela indo pro apartamento cheio de livros dele várias e várias vezes…

Você teria gostado da trilha sonora… Um piano melancólico, sensual e dramático. Te lembra alguém?
Um dia você me chamou pra ir ao cinema. Sabia que nessas horas é que eu te acho mais cruel? Todas as vezes plantando uma sementinha de coisas que você sabia que não iam acontecer e não deixando acontecer de propósito.

Voltando ao filme. O lance do Paul e da Connie me lembrou o nosso esquema: eles viviam tudo dentro do apartamento dele, um pequeno universo onde eles podiam se enganar dizendo que eram felizes. Sinto falta do quartinho. Então, o filme vai indo por esse lado até o final inevitável: o marido de Connie descobre tudo. Vou parar por aqui porque não quero te dar spoilers, mas tem um detalhe que sempre me pega.

LEIA O PRIMEIRO EPISÓDIO AQUI.

Em determinado momento, uma cena corta tudo e dá uma versão do que poderia ter acontecido se Connie simplesmente tivesse dado as costas para aquele lindo francês. Uma versão alternativa dos fatos onde eles seguiriam estranhos. Ele voltaria para os seus livros sozinho, ela iria para casa e nada trágico aconteceria. Por que você simplesmente não me deixou em paz?

Fiquei pensando em todas as vezes que eu poderia e deveria ter caído fora. Até caí uma vez, mas preocupada com os seus sentimentos, apesar de tudo, carinhosamente busquei uma retratação. Não queria voltar, lembro de ter gravado aquele áudio um milhão de vezes, preocupada em não apontar culpados, não querendo que fosse um pedido para voltarmos. Eu só queria que você não tivesse se machucado por causa de uma grosseria. Que ironia. Orson Wells dizia que se você quer um final feliz, depende de onde vai parar a história. Acho que as coisas teriam sido diferentes se eu tivesse ficado por aqui. Eu ainda te admiraria, talvez até gostasse um pouquinho.

A TRILHA SONORA DE INFIDELIDADE ESTÁ AQUI.

Bom, no final, a lição do filme é que as coisas acontecem quando deixamos acontecer. Eu deixei. Você me deixou. Eu estava me punindo por tudo: ter te conhecido, ter ficado vulnerável e o pior: ter deixado você saber. Mas honestamente, nesse ponto estou até orgulhosa. Quando visualizo as coisas com calma, percebo que não tem motivo. Eu sequer estive apaixonada. Apaixonada pelo quê? Eu nem te conheci.

Então, enquanto eu achava que estava assistindo eu me apaixonar por você, na verdade, eu estava me apaixonando por mim. Perdi o medo. Acho que até consegui ouvir aquele estalo de chicote que ecoa quando você encontra a pessoa que te liberta.

O filme fala ainda sobre perdão e devoção. Fiquei com a impressão de que você ficou esperando algum tipo de perdão da minha parte. Acho que para dormir com a cabeça tranquila, fingindo ser uma boa pessoa… Por outro lado, sei que você também não se daria ao trabalho. Isso nunca foi importante. Eu poderia ter dito as palavras, até pensei… Mas é que não dá. Estou ocupada demais tentando fazer isso por mim agora.

É um bom filme, você deveria assistir. E, por aqui, ainda penso em você. É melhor partir para a próxima tarefa.

TEM DIAS QUE EU FICO PENSANDO NA VIDA
02.11.2026

“Eu sei que os que nos amam sentirão a nossa falta.”

Essa foi a resposta que o Keanu Reeves deu em uma entrevista de 2019. A pergunta de Stephen Colbert em seu programa tinha sido o que ele achava que acontecia depois da nossa morte.
Eu não poderia ter pensado em uma resposta melhor. Onze anos desde que o meu pai morreu e, às vezes, parece que ele saiu pela porta pela última vez ontem. Não passa. Não melhora. Você convive com aquela falta e segue vivendo porque é o que tem pra fazer. A ausência não diminui, mas a vida continua acontecendo mesmo quando uma parte de nós parece ter ficado parada em algum lugar do passado.

Eu já perdi algumas pessoas na vida. Elas se foram em acidentes, doenças terríveis ou simplesmente decidiram que era a hora de ir. Recentemente uma pessoa muito querida se foi em um desses acidentes que deixam a gente sem reação. Em uma quinta-feira comum, você acorda, beija seus familiares, posta um story, almoça e se vai para sempre. Não é estranho?

Na voz do poeta:

Tem dias que eu fico
Pensando na vida
E sinceramente
Não vejo saída
Como é, por exemplo
Que dá pra entender
A gente mal nasce
Começa a morrer
Depois da chegada
Vem sempre a partida […]

Pensar na vida enquanto se morre porque morremos todos os dias. Morremos um pouco quando nos despedimos de alguém, quando uma versão de nós deixa de existir, quando percebemos que certas coisas nunca mais serão como antes. E, ainda assim, continuamos nascendo de novo, de alguma maneira, para os dias que nos restam. Talvez seja por isso que a morte dos outros nos faça pensar tanto na nossa própria vida. Não apenas no que acontece depois, mas no que estamos fazendo enquanto ainda estamos aqui.

Você morreria feliz no final das contas? Quem sentiria a sua falta?

Acho que é uma forma morbidamente boa de começar o dia: pensando na morte, lembrando da ausência e, principalmente, reconhecendo a sorte que é estar aqui. Talvez não saibamos o que acontece depois, mas sabemos que os que nos amam sentirão a nossa falta. E, enquanto ainda podemos, que a gente faça alguma coisa bonita com isso.

EU ME ENTREGO TODA VEZ
30.10.2026

Em uma entrevista recente, Fernanda Montenegro, aos 96 anos diz: “Chega uma hora na vida que a gente não tem mais futuro, tem só o presente.” Isso nunca mais saiu da minha cabeça. Eu sempre pensei na vida como um grandíssimo hoje. Nunca passei vontade, tudo o que eu quero, eu faço. Chamo ficante de amor e me despeço com um drama de quem viveu uma vida juntos e não um mês porque, pra mim, realmente foi uma vida, sei lá se morro amanhã.

Em Como Perder Um Homem Em 10 Dias, tudo começa depois que a melhor amiga de Andie, Michelle, chora depois de mais uma desilusão amorosa. No consolo, Andie diz: “Vai ficar tudo bem, só ficou com ele uma semana.” Ao que Michelle responde: “foi a melhor semana da minha vida”.

Eu consigo entender a diva, sou uma pessoa que gosta de sentir intensamente. Na maioria das vezes, isso pouco tem a ver com o outro. A minha linha de raciocínio sempre é: eu gosto de me sentir querida, logo, o outro também gosta e é isso que vou fazer. Michelle não entende porquê as coisas não dão certo e depois segue um monólogo de todas as coisas sufocantes que ela faz seguido de uma conclusão absurda: é porque eu sou gorda.

JÁ ME SEGUE NO INSTA?

A culpa nunca é do outro. A gente se entrega toda vez e quando não dá certo, é claro que a culpa é toda nossa e nunca da pessoa oposta, sequer dividimos a responsabilidade do peso. Transamos casualmente e no, dia seguinte, nos sentimos putas baratas. Esquecemos que somos mulheres bem resolvidas, explorando a nossa sexualidade e a liberdade sexual. Esquecemos que relações são moedas de troca: se você tá dando é porque tem alguém comendo. Em nenhum momento, você faz juízo de valor dessa pessoa. Seja mais carinhosa com você mesma.

Eu me entrego toda vez e só me fodo. É o que eu mais ouço. Será? Você se entrega toda vez e vive tudo o que tem pra ser vívido. Explora novas possibilidades. Descobre mais coisas. Conhece mais gente. Repete. Elabora e uma hora dá certo. Descentralize o amor romântico, se te faz tão mal, pega toda essa vontade de viver e joga para outras coisas, juro pra você que vale a pena!

Mas, se você quer mesmo morrer de amor, aqui vai algo pra acalmar o seu coração: a Michelle fica com o cara no final.

ARRUMEI O QUARTO
29.10.2026

— O que você está fazendo? — você perguntava já perto da meia noite.
— Eu não sei como uma pessoa tão detalhista consegue ser tão bagunceira — respondo rodeada pelos meus objetos. — Estou arrumando o meu quarto.
— Você sempre está fazendo algo assim tarde da noite.
— Eu gosto do silêncio.
— Eu também. Agora consigo imaginar nós dois em silêncio juntos e eu gosto dessa imagem.

Lembrei disso e me pus a arrumar o meu quarto. Esse é o primeiro episódio da série coisas que eu faço para te esquecer.

Meu quarto é onde eu me sinto mais eu. Amo estar rodeada pelos meus objetos, tenho orgulho deles. Tudo o que é meu tem a minha cara, o meu jeito, a minha letra, o meu cheiro, tem eu. Mas, às vezes, o acúmulo de tanto de mim me sufoca e me golpeia. Pelo menos uma vez no ano, eu tenho vontade de pegar tudo e colocar nunca grande fogueira.
Você também se sente assim às vezes?

Começo pela mesa, era um sonho, sabia? Ter uma mesa onde eu pudesse fazer o que eu faço agora: escrever. Sempre achei chique ser uma mulher que fala sobre sentimentos, que escreve coisas que inspiram os outros, uma espécie de Carrie Bradshaw do cerrado. Quem é Carrie você deve se perguntar. É uma mulher maluquinha que sofre na mão de um cara em Sex and the City. Parece familiar? Fato é que eu nunca tive tanta coragem assim.

TUDO COMEÇOU ASSIM.

A mesa vive cheia de mim: livros, música, pinturas, roupas sujas, copo cheios de água, xícaras com café seco no fundo, embalagens de chocolates e centenas de papéis amassados. Agora está limpa de tudo, inclusive de mim. No quadro em frente, arranquei as fotos para colocar as minhas metas de aniversário e ficou um vazio estranho.

Voltei algumas fotos e agora rostos doces e cheios de sorriso me vigiam enquanto eu durmo. Às vezes, minto que são as pessoas que eu desejo e quando as consigo faço um grande X vermelho nelas. Acho que preciso parar de assistir séries criminais. São trinta e quatro metas, seis estão cumpridas e nenhuma delas é fazer parte do broken hearts club. Uma pena, essa tava bem previsível, mas pra ser sincera quando pensei nessa lista, a gente mal se conhecia.

Para onde vamos? Ah, a minha mesinha de cabeceira, eu ia escrevendo criado-mudo, mas você acredita que muita gente ainda acha que esse termo é racista? Não é, pelo menos não tem provas históricas de que seja. Na mesinha, eu coloco um dispersor de óleo essencial. Uma vez, comprei um óleo de cedro de atlas e esqueci para que servia. Voltei a pesquisar e veio muito a calhar.

PRA FICAR MAIS EMOCIONANTE, OUÇA ESSA MÚSICA.

É bom para aterrar, traz de volta a serenidade e o foco e ajuda a aliviar o stress (eu tava preocupada com a conta de energia), a ansiedade (estava doida pra ter ver uma última vez) e o esgotamento mental (de ter sido enganada embaixo do meu nariz) e olha realmente funciona. Tudo isso passou. Qual era aquele incenso que tu usava mesmo?

Nessa mesinha ainda estão os azulejos que eu pintei e que tenho procrastinado para finalizar. Minha mãe quase não acredita que eu mesma pintei e eu meio que fiquei bem orgulhosa. Tem também uma vela perfumada que eu ganhei de Natal, o que me faz lembrar aquela nossa vela de massagem, ela era muito boa, né? Entendo você ter jogado fora, estava quebrada como nós e se chamava Restos de Carnaval. Acho que era mesmo pra ser.

Podemos ir para a cama? Sempre foi a minha parte favorita. Preciso trocar o colchão e os travesseiros, suspeito que seja por isso que as minhas costas doem tanto. Ela é de ferro, meu pai fez. Você sabe o quanto eu amo falar dele, então vou só seguir em frente. A cama é imensa e eu demorei a me acostumar. Depois do divórcio, dormia encolhidinha no canto com um fantasma me abraçando. Eu sei que você se sente assim também, pela forma como quase entrava em mim (e as vezes entrava mesmo) quando compartilhávamos uma conchinha confortável pra ti, pesada pra mim.

JÁ ME SEGUE NO INSTA?

Eu nunca dormi quando estava contigo. No fundo, eu sentia que você me trairia se eu fechasse os olhos. A cama é uma bagunça. Muito parecida com a mesa: roupas, livros, papelaria e eu lutamos por um espaço. Por isso nunca te chamei, você não caberia. É a minha vida inteira. Você não cabe.

Estou ficando cansada. Está tarde, você sabe, mas ainda tem a estante e o guarda-roupas. Sempre fico em dúvida sobre qual vai ser o primeiro. As roupas já não me pertencem. Estão largas ou apertadas já não gosto das cores, meu gosto mudou, meu corpo também e você amava me lembrar disso quando suas mãos viajavam por ele. Era tudo mentira? Dobro tudo de qualquer jeito, o espaço é pequeno, tirei três sacolas para a doação e queria mesmo ficar pelada, feito bicho, sem precisar de tudo isso. São apenas mais coisas para serem decididas. As gavetas deixo pra lá. Minhas calcinhas estão todas manchadas de você.

A estante de livros. Você me perguntou o que eu lia e eu respondi: apenas bobagens em sua maioria. É que eu não queria te constranger com o tamanho do meu cérebro. Tenho o sonho de me livrar dos livros, eu gosto deles mas estão cheias de marcas do tempo e isso não me apetece, me faz lembrar de mim, o que faz me lembrar de ti e isso é péssimo. Termino tudo, recolho o lixo e na hora de passar o pano, decido: jogar água deixa tudo mais limpo.

Ainda penso em você. É melhor partir para a próxima tarefa.

401 HORAS
26.10.2026

Não sabia como falar, por isso pesquisei no Google quantas horas levam pra eu ir até você. 401 horas a pé, sem interrupções. 16 dias e 19 horas. Calcei o tênis e me pus a caminhar pelas ruas do street view descobrindo ideias que poderiam ser conversas entre nós.

Lembrei que estava sem óculos quando te vi pela primeira vez. Eu tinha tirado rapidamente para ler uma mensagem porque enxergo melhor sem eles quando o objeto está próximo. Como se, de alguma forma, eu sentisse a sua presença, levantei o rosto e vi aquele vulto que era tu, que deixava o cabelo escapar por baixo do boné. Um estranho logo reconhece o outro e eu te reconheci assim: um alguém, em situação caótica, indo ou voltando de algum lugar. O vulto era bonito porque você é bonito e não se precisa de óculos para enxergar certas coisas…

Eu fiquei te olhando e depois de algumas perguntas descobri que você, todo lindo, não estava indo. Agradeci a Deus por aquele borrão estar chegando. Uma coisa chata é a gente nunca mais ter conseguido sair. Eu queria ter saído e ter chegado antes de você, chegaria mais cedo só pra te ver chegando porque acho que não tem nada mais bonito do que um menino cacheado.

Um dia você acorda e tudo está diferente. Leia aqui.

Eu te faço muitas perguntas só pra ouvir a sua voz, que é bonita demais e eu gosto de olhar pra você enquanto você fala com a tua voz bonita e seus dentinhos separados e lindos e quando tu sorri, o lábio não some (!!!). Você tenta arrumar o cabelo quando é impossível.Você gosta de música e fala delas pra mim. Juntos, antes de irmos embora um do outro, tomamos 0 cafés, mas tomamos 5 cervejas, comemos bombons de caramelo salgado e dividimos um pacote de amendoins.

Quando você me olhava nos olhos, quando você sorria das coisas que eu dizia e quando você sorria de aprovação quando me ensinava alguma coisa (e eu entendia!!!) era como se fosse um troféu. Eu sentia uma ternura tão grande, uma vontade de sei lá o quê. Como é o nome disso?

Sabia que eu já li o meu livro favorito mais de cinco vezes? Isso diz muito sobre mim: eu gosto muito das coisas que eu gosto. Uma vez eu estava te stalkeando, abri um foto e quando voltei, você tinha postado um story. Resisti à tentação de ver, mas gostei de saber que estávamos online juntos. É bom acompanhar você existindo. Toda atualização que não é sua, é perda de tempo e toda mensagem que não chega, eu sei que é você.

Perdoa o meu jeito. Cheguei. Andei 1.763 quilômetros até aqui. Vou acender um cigarro, fingir que a minha boca é a sua. Me arrumar. Quero ficar bonita. Não quero que você pense que estou desesperada.

REESCREVENDO MEU LIVRO
05.11.2025

Estou reescrevendo o meu livro e quero compartilhar o processo com vocês. Primeiramente, lancei o Mais Brilhante Que O Sol em 2013. Foi o meu primeiro livro, paguei uma editora, tem alguns impressos por ai, mas não é um livro que eu amo. Na verdade, é algo que sempre me traumatizou um pouco, então agora estou fazendo uma segunda edição, melhorando apenas o que foi escrito sem mudar a essência da história. Esse é um processo que eu já tentei fazer um milhão de vezes, mas sempre acabava mudando demais a história e me frustrando, dessa vez eu estou conseguindo bem.

Autografando meu livro para o meu pai em 2013 <3

Sinopse

Helena é uma jovem que saiu muito cedo da casa do pais, que moravam no interior, em busca de novos horizontes. Inteligente e sonhadora, tendo em seu passado desilusões amorosas, vê sua vida mudar ao ter a chance de ir para Nova York com sua melhor amiga e se reinventar. Em Nova York, quando sai para procurar emprego um labrador se solta da coleira e brincando a derruba, ela não acredita que a sorte tenha batido na sua porta ao se deparar com George, o dono do cão, um ator americano no qual ela nutre uma paixão platônica. Um romance avassalador sobre julgamento, confiança e amizade.

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[SEM DATA] ALVORADA, TO
24.02.2025

Querida Evinha, boa noite, amor!
Eis-me nesta sossegada cidade de Alvorada. Uma cidade que encontrei adormecida às nove horas da noite. Começo amanhã meu trabalho, espero que corra tudo bem, embora os negócios estejam um pouco parados. Estou meio melancólico, mas isso passará, espero.

Ah! Escrevo para “aquela que me medita. Ela sonha e esse sonho sou eu.” E depois, quando em mãos, não se tem papel para transmitir ideias – cria-se condições, mesmo sendo inapropriadas são válidas.

Como alma perdida, na escuridão da noite, vaguei pelos cumpridos corredores do hotelzinho de 2ª classe, onde sem luz passo a noite. Queria escrever-lhe mas não tinha papel, resolvi então sair em busca. Tateando pelos corredores batia na porta da direita e da esquerda:
— Me arruma uma folha de papel? E a resposta:
— Não tenho.
No finalzinho do corredor encontrei estas folhas de caderno. Ufa! que alívio.

E agora, eis-me aqui, sentado a sua frente. Cigarro nos lábios, papel e caneta a mão, rosto inclinado – e as ideias? Sumiram!!!

De todos os defeitos que trago comigo, o menos elogiável é sem dúvida, a falta de conhecimentos, os demais são imperdoáveis, mas fazem parte da vida e as pessoas podem até compreendê-los.

…Um rosto inclinado que pensa. Pensa em você e só sabe dizer: “Evinha” “Evinha” “meu benzinho” “Meu benzinho” “Eu te amo “Eu te amo”.

Pretinha querida, quando na 2ª feira que sai dai, vim dormir em Guaraí, onde vendi 250 mil. Na 3ª, dormi em Miranorte, onde vendi 160 mil. Na 4ª, fui à Lagoa da Confusão, mas na volta dormi em Cristalândia. E hoje 5ª, aqui estou em Alvorada, de onde lhe escrevo.

Não consegui encontrar a Terezinha. Falei com o pai dela -sr. Plandô. Mas o cano foi confirmado. Adeus tutú!

Quanto a mulher de Alvorada, prometeu arrumar o dinheiro de hoje até 2ª feira próxima.

O Gabriel foi embora, ele me aborrece um pouco, mas quando ele vai, sinto falta. Talvez seja a falta de seus enjoamentos.

Evinha, nós, os homens, tomamos ares importantes, mas conhecemos, no intimo do coração, a hesitação, a dúvida, a tristeza…

O Gabriel está terrivelmente abatido… Os negócios… A Aninha etc. etc. Pediu-me ele, que arrumasse 250 mil em cheques dos meus fregueses e + 250 mil quando for ao Mato Grosso, totalizando 500 mil, em troca da variante. Tive de aceitar. Agora temos dois carros, mas fico devendo as firmas.

Diante das dificuldades para concretizar nossa união. Diante dos prejuízos que venho tomando, senti um pouco em duvida, mas acabei por topar a parada, porque penso que “o viajante que sobe uma montanha na direção de uma estrela, quando se deixa absorver pelos problemas da escalada, está arriscado a esquecer qual estrela o guia”. Se só age por agir, não irá a parte alguma. E eu não quero esquecer a minha estrela, porque sem você não irei a parte alguma. Talvez este negócio, um pouco arriscado, seja a solução mais rápida para nós. Queria que minha “estrela” tivesse confiança em mim e não pensasse que estou acomodado, como você vem pensando.

De outra parte penso que, a zeladora de uma igreja, quando se preocupa demasiado com a disposição das cadeiras, está arriscada a esquecer que serve a um Deus. Assim, prendendo-me demasiadamente a ideia de só arrumar o dinheiro para o casamento, estou arriscado a esquecer a noiva.

Evinha, inclinado sob a luz da vela já queimei o cabelo duas vezes, mas é por causa da fumaça do cigarro que tenho picumã no nariz.

Meu benzinho, tenho tentado disfarçar minhas preocupações, mas a verdade é que, estou constantemente envolvido pelas próprias condições do aborrecimento. E entretanto, divindades invisíveis constroem-nos numa rede de direções, de declives e de sinais, numa musculatura secreta e viva. Não há mais uniformidade. Tudo se orienta. Até mesmo um silêncio em mim, não se parece com outro silencio.

Sabe, Evinha, pensando bem, há um silêncio de paz, quando estou escrevendo a você, quando a noite traz sua frescura e parece que a gente para num porto seguro, como sua presença amiga e companheira. Há um silencio do meio dia, quando o sol impede os pensamentos e os movimentos. Há um falso silêncio, quando você está distante, porque conheço de perto a religião interior. Há um silêncio de conspiração, quando se sabe que as pessoas tentam fazer sua cabecinha contra mim. Há um silêncio de mistérios, quando os inimigos que a gente pensa ser amigos se reúnem e confabulam para saber nossas vidas. Há um silêncio tenso, quando estou longe e me veem temores de que jamais voltarei a vê-la. Um silencio agudo quando, a noite, a gente prende a respiração para escutar. Um silencio melancólico, se a gente se lembrar do que ama.

DISCLAIMER

Encontrei algumas cartas que meu pai escreveu para minha mãe, essa estava sem data mas desconfio que seja no início dos anos 80.

AQUELA EM QUE EU NÃO SABIA O QUE ESCREVER
17.02.2025

Queria escrever, mas dai tomei muito café e em troca recebi muita tremedeira. Dessas que chacoalham a gente por dentro, sabe? Vão querer dizer que é ansiedade, mas eu não deixo. Estou com vontade de chorar, mas não é angústia, aquele choro ruim… É só vontade mesmo, de tédio. Tem dias que eu tô assim, sento na cama e falo: vai, Luma, eu deixo você chorar, dai não choro e vou lá arrumar meu quarto que tá uma bagunça. Talvez se eu assistir uma comédia romântica bem água com açúcar resolva.

Me sinto mal por ter o blog há dez anos e não saber mais como usá-lo. Antes tinha resenha, foto, livro, tudo, nada e era bom, agora estou confusa, então resolvi fazer texto porque queria contar como foi meu dia ou sei lá, só falar sobre as coisas da vida mesmo.

A primeira coisa é que eu comecei reparar que ando muito resistente pra gostar das pessoas. É que eu não quero me machucar e eu sei que isso é inevitável, sofrer faz parte da experiência, mas não sei, tanto tempo de coração fechado me deixou desconfiada e me parece tão cansativo isso de gostar. Tem que pensar se é reciproco, tem que pensar em como ou por que, tenho que pensar no que digitar, não sei se sou carinhosa o suficiente ou se estou sendo fria demais… Sabe, eu achava que quando fosse pra valer, não teria como fugir, achei que fosse mais simples, com 17 anos, era.

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ESTRUTURA
23.04.2024

Estrutura – Estou escrevendo um livro de acordo com o livro Manual Do Roteiro do Syd Field e vim compartilhar com vocês um pouco do meu processo. No primeiro capítulo Field nos fala sobre a diferença entre:

Romance: a ação dramática, geralmente acontece na mente do personagem principal.
Teatro: a ação ocorre na linguagem da ação dramática; que é falada em palavras.
Filme: meio visual que dramatiza um enredo básico.
Roteiro: história contada em imagens, diálogos e descrições, localizada no contexto da estrutura dramática.
Então um roteiro é basicamente uma pessoa > num lugar > vivendo suas coisas.

O roteiro tem uma forma: início, meio e fim.
Isso é o que chamamos de estrutura ou structura: construir / organizar e agrupar elementos diferentes / relacionamento entre as partes e o todo.
Eu explico: sabe um jogo de xadrez? Bom, ele é composto de quatro partes: o jogador, as peças, o tabuleiro e a regra, quatro partes essas que se unem em prol de um todo: o jogo de xadrez. Isso é uma estrutura.

Um paradigma é um exemplo, um modelo conceitual… Por exemplo: uma mesa é um paradigma. Um tampo que se apoia em quatro pernas. A partir dai, pode ser uma mesa baixa ou alta, redonda ou quadrada, de vidro ou madeira… de qualquer forma, o paradigma não muda, uma mesa continua sendo um tampo sustentado por quatro apoios. Vejamos então o paradigma do roteiro:

Esquema retirado do livro Manual do Roteiro

Considerando que o livro fala sobre roteiro de filme, é dito que uma página corresponde a um minuto de filme, ou seja, um filme de 120 minutos corresponde a um roteiro de 120 páginas. Vejamos:

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COMO VOCÊ DEMONSTRA AFETO?
26.01.2023

Como você demonstra afeto?

Vi tal coisa e lembrei de você!
Eu tenho poucas certezas na vida, uma delas é que não tem um ser vivo no universo que não goste dessa frase.

Sabe quando você começa a se apaixonar e tudo lembra a pessoa e você quer que ela esteja ciente disso, mas também não quer parecer psicopata e o friozinho na barriga é crescente e constante?
Eu amo essa sensação.

Acho que esse é um bom exercício para se dar a devida importância.

Alguém gosta do que você escreve, alguém curte as suas fotos, o cheirinho de café à tarde parece tu, quando toca Los Hermanos você é o primeiro pensamento que vem, sabem que você ama aquele livro.

Alguém pensou muito em você hoje. E ai, como você demonstra afeto?

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ROTINA BOA PRA QUEM?
12.01.2023

Rotina – Como você aproveita o seu dia?

Tempos atrás me deparei com um nicho interessante na internet, era o tal de Como Ser Aquela Garota.

Aquela garota é disciplinada.
Acorda cedo, toma smothies, se exercita, faz skincare, lê, estuda, faz refeições saudáveis e usa uma paleta de cores minimalista.
Eu não me engano, adoraria ser aquela garota.

Foi então que me deparei com uma série de cronogramas de rotina e minha reação foi rir um pouco. Óbvio que a rotina é perfeita. Mas perfeita pra quem?
Não encontrei as minhas oito horas de trabalho, a faxina da casa e nem um encontro com amigos.
A rotina perfeita é morar no quarto tendo companhia uma coleção de stabilo boss ou será que a desorganizada do rolê sou eu?

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FELIZ ANO NOVO!
02.01.2023

Feliz Ano Novo! Já falei algumas vezes que, como boa virginiana, dias primeiros me interessam muito.
Dia um que cai em um domingo, então… Dia um que cai num domingo e ainda em janeiro, fala sério! Não tem como dar errado.

Algumas pessoas olham torto quando veem minha excitação entre o último e o primeiro minuto, como se tudo fosse mudar com pó de pirilipimpim, como se algo grandioso e mágico fosse acontecer ali naquele breve minuto entre 23h59 e 00h00.

Amargurados.

A excitação do que é novo sempre me emocionou: o frio na barriga do primeiro encontro, a ansiedade antes de uma grande viagem…
O ano novo é assim pra mim: um romance desajeitado cujo a gente quer muito que dê certo, mas que não temos verdadeiramente como saber, pois não o conhecemos direito.

O ano novo é um espelho, nada mais é do que você refletir a si mesmo enquanto promete parar de fumar.
Muito se fala sobre querer… Para esse ano eu quero, quero, QUERO. Q-U-E-R-O. Mudar de emprego, chutar o boy, ser independente… Até quando dura a tua promessa?

Bom, eu QUERO atravessar. Não fiz grandes planos para o ano todo, apenas doses homeopáticas, todo mês um bocado: não beber, ir pra academia, ler, escrever, estudar e sobreviver já está ótimo.

Espero sua companhia por esses dias 😉
Feliz ano novo!

@lumiconunes