— Mas ele ama ela, apesar de não ter tempo de conversar tanto pelo telefone — você disse depois de me contar que o seu amigo casado estava trocando nudes com uma colega de trabalho.
— Ama mesmo? — perguntei, mordendo a bochecha.
— Acho que sim — você respondeu tentando parecer neutro, mas julgando a situação.
— Não tem tempo de falar com a esposa no telefone, mas tem para trocar nudes com outra pessoa?
Silêncio.
Lembrei disso e fui assistir o meu filme favorito. Esse é o segundo episódio da série coisas que eu faço para te esquecer.
O meu filme favorito é Infidelidade (2002). Juro, não estou inventando, assisti umas dez vezes (eu gosto muito das coisas que eu gosto, lembra?). Connie Sumner vive uma vida comum no subúrbio com o marido Edward e o filho Charlie. Por acaso, sua vida cruza com o charmoso Paul Martel, um jovem francês que muda a vida da família para sempre.
Eu gosto da história, mas a minha parte favorita é a fotografia. Tudo começa com uma ventania. Em Palmas venta bastante, ou ventava pelo menos, o clima tá estranho. Lembra quando eu te contava as coisas daqui e você se virava na cama para me ouvir?
Enfim, nessa ventania doida, Paul e Connie se esbarram, o que leva a um machucado no joelho, o que leva a ela indo pro apartamento cheio de livros dele várias e várias vezes…
Você teria gostado da trilha sonora… Um piano melancólico, sensual e dramático. Te lembra alguém?
Um dia você me chamou pra ir ao cinema. Sabia que nessas horas é que eu te acho mais cruel? Todas as vezes plantando uma sementinha de coisas que você sabia que não iam acontecer e não deixando acontecer de propósito.
Voltando ao filme. O lance do Paul e da Connie me lembrou o nosso esquema: eles viviam tudo dentro do apartamento dele, um pequeno universo onde eles podiam se enganar dizendo que eram felizes. Sinto falta do quartinho. Então, o filme vai indo por esse lado até o final inevitável: o marido de Connie descobre tudo. Vou parar por aqui porque não quero te dar spoilers, mas tem um detalhe que sempre me pega.
LEIA O PRIMEIRO EPISÓDIO AQUI.
Em determinado momento, uma cena corta tudo e dá uma versão do que poderia ter acontecido se Connie simplesmente tivesse dado as costas para aquele lindo francês. Uma versão alternativa dos fatos onde eles seguiriam estranhos. Ele voltaria para os seus livros sozinho, ela iria para casa e nada trágico aconteceria. Por que você simplesmente não me deixou em paz?
Fiquei pensando em todas as vezes que eu poderia e deveria ter caído fora. Até caí uma vez, mas preocupada com os seus sentimentos, apesar de tudo, carinhosamente busquei uma retratação. Não queria voltar, lembro de ter gravado aquele áudio um milhão de vezes, preocupada em não apontar culpados, não querendo que fosse um pedido para voltarmos. Eu só queria que você não tivesse se machucado por causa de uma grosseria. Que ironia. Orson Wells dizia que se você quer um final feliz, depende de onde vai parar a história. Acho que as coisas teriam sido diferentes se eu tivesse ficado por aqui. Eu ainda te admiraria, talvez até gostasse um pouquinho.
A TRILHA SONORA DE INFIDELIDADE ESTÁ AQUI.
Bom, no final, a lição do filme é que as coisas acontecem quando deixamos acontecer. Eu deixei. Você me deixou. Eu estava me punindo por tudo: ter te conhecido, ter ficado vulnerável e o pior: ter deixado você saber. Mas honestamente, nesse ponto estou até orgulhosa. Quando visualizo as coisas com calma, percebo que não tem motivo. Eu sequer estive apaixonada. Apaixonada pelo quê? Eu nem te conheci.
Então, enquanto eu achava que estava assistindo eu me apaixonar por você, na verdade, eu estava me apaixonando por mim. Perdi o medo. Acho que até consegui ouvir aquele estalo de chicote que ecoa quando você encontra a pessoa que te liberta.
O filme fala ainda sobre perdão e devoção. Fiquei com a impressão de que você ficou esperando algum tipo de perdão da minha parte. Acho que para dormir com a cabeça tranquila, fingindo ser uma boa pessoa… Por outro lado, sei que você também não se daria ao trabalho. Isso nunca foi importante. Eu poderia ter dito as palavras, até pensei… Mas é que não dá. Estou ocupada demais tentando fazer isso por mim agora.
É um bom filme, você deveria assistir. E, por aqui, ainda penso em você. É melhor partir para a próxima tarefa.


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