ARRUMEI O QUARTO
29.10.2026

— O que você está fazendo? — você perguntava já perto da meia noite.
— Eu não sei como uma pessoa tão detalhista consegue ser tão bagunceira — respondo rodeada pelos meus objetos. — Estou arrumando o meu quarto.
— Você sempre está fazendo algo assim tarde da noite.
— Eu gosto do silêncio.
— Eu também. Agora consigo imaginar nós dois em silêncio juntos e eu gosto dessa imagem.

Lembrei disso e me pus a arrumar o meu quarto. Esse é o primeiro episódio da série coisas que eu faço para te esquecer.

Meu quarto é onde eu me sinto mais eu. Amo estar rodeada pelos meus objetos, tenho orgulho deles. Tudo o que é meu tem a minha cara, o meu jeito, a minha letra, o meu cheiro, tem eu. Mas, às vezes, o acúmulo de tanto de mim me sufoca e me golpeia. Pelo menos uma vez no ano, eu tenho vontade de pegar tudo e colocar nunca grande fogueira.
Você também se sente assim às vezes?

Começo pela mesa, era um sonho, sabia? Ter uma mesa onde eu pudesse fazer o que eu faço agora: escrever. Sempre achei chique ser uma mulher que fala sobre sentimentos, que escreve coisas que inspiram os outros, uma espécie de Carrie Bradshaw do cerrado. Quem é Carrie você deve se perguntar. É uma mulher maluquinha que sofre na mão de um cara em Sex and the City. Parece familiar? Fato é que eu nunca tive tanta coragem assim.

TUDO COMEÇOU ASSIM.

A mesa vive cheia de mim: livros, música, pinturas, roupas sujas, copo cheios de água, xícaras com café seco no fundo, embalagens de chocolates e centenas de papéis amassados. Agora está limpa de tudo, inclusive de mim. No quadro em frente, arranquei as fotos para colocar as minhas metas de aniversário e ficou um vazio estranho.

Voltei algumas fotos e agora rostos doces e cheios de sorriso me vigiam enquanto eu durmo. Às vezes, minto que são as pessoas que eu desejo e quando as consigo faço um grande X vermelho nelas. Acho que preciso parar de assistir séries criminais. São trinta e quatro metas, seis estão cumpridas e nenhuma delas é fazer parte do broken hearts club. Uma pena, essa tava bem previsível, mas pra ser sincera quando pensei nessa lista, a gente mal se conhecia.

Para onde vamos? Ah, a minha mesinha de cabeceira, eu ia escrevendo criado-mudo, mas você acredita que muita gente ainda acha que esse termo é racista? Não é, pelo menos não tem provas históricas de que seja. Na mesinha, eu coloco um dispersor de óleo essencial. Uma vez, comprei um óleo de cedro de atlas e esqueci para que servia. Voltei a pesquisar e veio muito a calhar.

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É bom para aterrar, traz de volta a serenidade e o foco e ajuda a aliviar o stress (eu tava preocupada com a conta de energia), a ansiedade (estava doida pra ter ver uma última vez) e o esgotamento mental (de ter sido enganada embaixo do meu nariz) e olha realmente funciona. Tudo isso passou. Qual era aquele incenso que tu usava mesmo?

Nessa mesinha ainda estão os azulejos que eu pintei e que tenho procrastinado para finalizar. Minha mãe quase não acredita que eu mesma pintei e eu meio que fiquei bem orgulhosa. Tem também uma vela perfumada que eu ganhei de Natal, o que me faz lembrar aquela nossa vela de massagem, ela era muito boa, né? Entendo você ter jogado fora, estava quebrada como nós e se chamava Restos de Carnaval. Acho que era mesmo pra ser.

Podemos ir para a cama? Sempre foi a minha parte favorita. Preciso trocar o colchão e os travesseiros, suspeito que seja por isso que as minhas costas doem tanto. Ela é de ferro, meu pai fez. Você sabe o quanto eu amo falar dele, então vou só seguir em frente. A cama é imensa e eu demorei a me acostumar. Depois do divórcio, dormia encolhidinha no canto com um fantasma me abraçando. Eu sei que você se sente assim também, pela forma como quase entrava em mim (e as vezes entrava mesmo) quando compartilhávamos uma conchinha confortável pra ti, pesada pra mim.

JÁ ME SEGUE NO INSTA?

Eu nunca dormi quando estava contigo. No fundo, eu sentia que você me trairia se eu fechasse os olhos. A cama é uma bagunça. Muito parecida com a mesa: roupas, livros, papelaria e eu lutamos por um espaço. Por isso nunca te chamei, você não caberia. É a minha vida inteira. Você não cabe.

Estou ficando cansada. Está tarde, você sabe, mas ainda tem a estante e o guarda-roupas. Sempre fico em dúvida sobre qual vai ser o primeiro. As roupas já não me pertencem. Estão largas ou apertadas já não gosto das cores, meu gosto mudou, meu corpo também e você amava me lembrar disso quando suas mãos viajavam por ele. Era tudo mentira? Dobro tudo de qualquer jeito, o espaço é pequeno, tirei três sacolas para a doação e queria mesmo ficar pelada, feito bicho, sem precisar de tudo isso. São apenas mais coisas para serem decididas. As gavetas deixo pra lá. Minhas calcinhas estão todas manchadas de você.

A estante de livros. Você me perguntou o que eu lia e eu respondi: apenas bobagens em sua maioria. É que eu não queria te constranger com o tamanho do meu cérebro. Tenho o sonho de me livrar dos livros, eu gosto deles mas estão cheias de marcas do tempo e isso não me apetece, me faz lembrar de mim, o que faz me lembrar de ti e isso é péssimo. Termino tudo, recolho o lixo e na hora de passar o pano, decido: jogar água deixa tudo mais limpo.

Ainda penso em você. É melhor partir para a próxima tarefa.

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