“Sobreviveu sem ser crucificada”, disse ele e eu sorri.
Eu nunca tinha me sentido velha. Não sei se são os cabelos brancos, as linhas finas ou a total falta de vontade pra mudar o cabelo. Pode ser que seja porque agora acho fácil quando alguém decide ir embora entendendo que faz parte ou a preocupação excessiva que eu sinto quando não sei se a minha meia-entrada vai valer ou não (sim, eu chamo ansiedade de preocupação excessiva, minha irmã gosta).
Esse ano eu não me apaixonei. Isso me deixou triste e um pouquinho orgulhosa, será que finalmente deixei meu coração ficar peludo?
Também me conformei mais com a vida. Isso eu achei triste, mas também libertador.
A consciência de que eu tenho um corpo que se acidenta se machuca e até morre, me deixou mais calma. Acho que entender que tudo acaba, deixa a vida menos urgente.
Ano passado, eu estava mais otimista.
Me despeço dessa idade e um pouquinho de mim.
Tem anos que a astrologia me diz pra deixar as coisas irem, mas eu não podia porque se eu deixasse ir, o que ia restar?
Agora estou aliviada, tipo quando você vai embora pra longe e não tem espaço pra levar nada além das roupas, sabe? E acho que eu não estou fazendo nem questão das roupas.
Estou me entregando à vida. Não de um jeito “deixa a vida me levar”, mas ainda sim sendo levada por ela.
Talvez eu ainda me apaixone e vai ser bom até quando ele for embora.
E talvez eu corte o cabelo e seis meses depois vai parecer que eu nunca cortei.
Talvez neguem a minha meia-entrada, mas tudo bem porque eu posso completar o ingresso.
Pode ser que eu ainda tenha medo, que ainda atente segurar algumas coisas, talvez eu até volte a querer o que eu estou aprendendo a deixar ir. No final, vai ficar tudo bem, sempre fica. Sobrevivi sem ser crucificada, mas não estou fugindo disso.

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