Em Intermezzo, Sally Rooney apresenta Peter e Ivan, dois irmãos que estão lidando com o luto pela perda do pai, cada um à sua maneira. Peter, aos 32 anos, está afundado em uma melancolia paralisante, tentando administrar os sentimentos e as relações com duas mulheres completamente diferentes. Ivan, aos 22, tenta se reencontrar como mestre de xadrez quando conhece uma mulher 14 anos mais velha.
Embora a história se concentre nos dois irmãos, para mim, as personagens mais interessantes são as mulheres que orbitam suas vidas. Ao acompanhar as relações que eles estabelecem com elas, fica cada vez mais evidente o quanto os homens podem ser seres emocionalmente desregulados, incapazes de compreender os próprios sentimentos e, muitas vezes, de lidar com as consequências deles.
Peter teve um grande amor em sua vida: Sylvia, uma mulher elegante, inteligente e de uma maturidade admirável. Após sofrer um grave acidente de carro, ela passa a conviver com sequelas que a impedem de ter uma vida sexual plena. Sete anos depois, essa mulher ocupa o lugar de melhor amiga de Peter e continua sendo uma presença fundamental em sua vida. Sylvia é uma personagem muito complexa. Existe nela uma capacidade de compreender as próprias circunstâncias sem permitir que elas definam toda a sua existência. A relação com Peter independe de uma tentativa de recuperar aquilo que já foi.
“O charme dela é cerebral.”
A outra mulher na vida de Peter é Naomi. Ela é dez anos mais nova que ele e mantém uma relação intrigante. Enquanto Sylvia representa uma história de amor atravessada pelo tempo e pelas circunstâncias, Naomi parece expor outras contradições de Peter, especialmente sua dificuldade de compreender o que deseja e o que está disposto a oferecer.
Minha personagem favorita, entretanto, é Margaret. Uma mulher de 36 anos que está presa aos modos de viver de uma cidade interiorana e morre de medo de que descubram como tem vivido a vida após o divórcio. Margaret me conquistou justamente por essa contradição entre a mulher que ela é e a mulher que acredita que deveria ser. Existe nela um desejo de liberdade que convive com o medo do julgamento alheio. Sua história me fez pensar em como as mulheres tem suas escolhas submetidas à aprovação de outras pessoas e como se a liberdade feminina precisasse ser justificada, escondida ou perdoada.
“É tipo… Ele quer voltar com você?
Não sei, ela diz. Às vezes acho que ele só quer me deixar infeliz.”
Temos ainda Christine, a mãe dos irmãos. Depois de se separar do pai dos meninos, ela foi viver a própria vida enquanto tentava continuar presente na vida dos filhos. Essa personagem também é bem importante porque apresenta uma mulher que precisou reconstruir a própria existência e que, mesmo assim, continua sendo observada a partir do lugar que ocupa na família.
Todas essas mulheres, tão diferentes entre si, nutrem suas relações com homens que parecem não conseguir decidir o que fazer nem mesmo com um cachorro sozinhos. E é aqui que Intermezzo me pegou.
Do lado de Ivan, vejo um homem que carrega uma visão bem problemática sobre as mulheres, um desprezo que só começa a ser questionado quando suas experiências o obrigam a olhar para si mesmo. É interessante acompanhar esse processo de reconhecimento, em que ele começa a perceber aspectos desagradáveis da própria personalidade e, aos poucos, se torna um pouco mais tolerante.
Peter, por sua vez, carrega uma necessidade constante de ser o salvador de mulheres que não precisam ser salvas. Esse complexo de salvador que, embora possa ser interpretado como uma manifestação de cuidado, também revela uma dificuldade de reconhecer a autonomia dessas mulheres. Como se amar alguém significasse necessariamente assumir a responsabilidade por sua vida.
Essa é uma das questões que mais me chamaram a atenção: até que ponto somos capazes de amar alguém sem transformar essa pessoa em uma resposta para os nossos próprios problemas?
“Pessoas simples, sem graça, não estão isentas da experiência de paixões arrebatadoras.”
Sally Rooney escreve homens frágeis, cheios de questões, que tentam compreender a si mesmos enquanto estabelecem relações com mulheres que também estão tentando descobrir como viver. E, embora os irmãos sejam os protagonistas, são essas mulheres que dão profundidade à narrativa. Achei os dois os típicos homens escritos por mulheres.
É isso que torna as personagens femininas tão interessantes: elas não são apenas instrumentos para o desenvolvimento emocional dos protagonistas. Cada uma delas possui seus próprios conflitos, desejos, medos e contradições. São mulheres que, mesmo quando parecem estar orbitando a vida desses homens, estão tentando construir suas próprias trajetórias. No fim, fiquei pensando em como as relações amorosas podem ser atravessadas por diferentes formas de exploração. Rooney aborda questões de poder, dinheiro, sexo e afeto de uma maneira que me fez refletir sobre como, mesmo nas relações mais íntimas, nem sempre conseguimos escapar das estruturas que organizam nossas vidas.
Gostei bastante de Intermezzo, mas acho que o livro poderia facilmente ter cem páginas a menos. Em alguns momentos, senti que a narrativa se prolongava mais do que precisava. Ainda assim, reconheço que essa insistência talvez faça parte da própria experiência que Rooney deseja construir: acompanhar pessoas que estão paralisadas diante de uma perda e que precisam, aos poucos, encontrar maneiras de continuar vivendo.


Me sinto terrível por não ter lido o livro, mas outubro realmente foi uma provação sem fim. De qualquer forma, assim como não prestei atenção no dia do clube, também não estarei lendo sua resenha pois eu ainda quero ler o livro livre de opiniões.
ps. amei as fotos