MAIS BRILHANTE QUE O SOL #1
07.04.2021
MAIS BRILHANTE QUE O SOL – CAPÍTULO 1

O corpo humano tem pouco mais que seiscentos e cinquenta músculos.
Como eu sei disso? Além das aulas de ciências, estou sentindo dor em cada um deles.
Pego um papel no topo da pilha que está na minha frente me esforçando para não ceder a tentação de deixar a minha cabeça, que agora deve ter uns trinta quilos, repousar na mesa.
Risco um X fraco na primeira questão da prova do João Pedro de Carvalho e então pela janela, vejo o sol ardendo lá fora e as folhas das árvores paradas, deve estar fazendo trinta e seis graus na sombra, uma temperatura totalmente contrastante com meu moletom, qualquer um que me veja na rua vai pensar que estou louca.
— Você não deveria estar em casa? — Minha melhor amiga pergunta se esgueirando para dentro da minúscula sala dos professores com capacidade para sete pessoas, nós somos doze.

       Quando eu era criança, achava que na sala dos professores rolava um universo paralelo onde eles se divertiam a beça. Bom, sem diversão por aqui, só estou sozinha nesse momento porque meus colegas estão com medo de mim.

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— Foram as recomendações médicas — murmuro apoiando a cabeça na mesa. — Mas essas provas precisam ser corrigidas e as bombas lançadas no sistema, hoje é o último dia.
       Assoo o nariz no pedaço de papel higiênico que tem sido o meu melhor amigo nos últimos dias e tenho certeza que estou a cara do Rudolph, a rena do nariz vermelho.
— Helena, eu fiz isso três dias atrás! — Vitória diz empurrando um pote em minha direção. — Vai pra casa e esquenta essa comida. Eu corrijo tudo isso, depois você lança as notas.
— Vi…
Quero aceitar, mas sei que não é justo, Vitória trabalha à beça e sei que ela também está correndo contra o tempo com o TCC.
— Anda logo! As pessoas já estão com medo de você.

       Levanto com dificuldade e começo a recolher meus pertences. Um folheto cai de dentro da minha agenda quando estou colocando-a dentro da mochila e Vitória pega para mim.
— Planejando? — Ela pergunta lendo o orçamento que fiz meses atrás em uma agência de viagens, a Estátua da Liberdade impressa no verso do papel denuncia o destino.
— Sonhando — corrijo puxando-o de sua mão e jogando de qualquer jeito na mochila.
— Sonhar é de graça, mas não tem a menor graça.

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Quando eu tinha doze anos, minha tia Lúcia se casou com Bill, um americano muito fofo que amava camisetas vermelhas, e foi embora. Ano após ano ela vinha nos visitar, trazendo presentes maravilhosos e histórias incríveis sobre Nova Iorque, certa vez, ela prometeu que me levaria de férias para conhecer a cidade que nunca dorme, eu fiquei meses sonhando com a neve e os prédios que ela jurava que tocavam o céu.
A tia Lúcia faleceu em um acidente de carro meses depois da promessa, me deixando de herança o sonho e uma série de cartões postais já amarelados pelo tempo.

— Quem sabe um dia? Agora a realidade me chama. Vou comer e deixar Miguel cuidar de mim. Obrigada!
Aproximo-me para lhe dar um beijo, mas ela pula pra bem longe de mim deixando que a mesa funcione como uma barreira.
— Sem contato físico!
— Tudo bem — ergo minhas mãos em rendição. — Quem perde é você.

“Sonhar é de graça, mas não tem a menor graça.”

Minha cara deve estar mesmo péssima, o motorista do aplicativo nem faz questão de puxar conversa. Olho o movimento do horário de pico pela janela, pessoas por todos os lados querendo aproveitar ao máximo o horário de almoço. Meu celular vibra no bolso do moletom.

Vi: Seu namorado imaginário estava lindo no MET Gala ontem.

       Clico no link que me direciona para a foto do homem mais lindo do planeta que também atende por George Ellis. Olho para a beleza em pessoa vestindo um smoking que parece ter sido costurado em seu corpo, ele é o homem do momento, seu último filme foi um arraso de bilheteria. Passo as fotos e encontro sua companhia da noite: uma morena genérica. Reviro os olhos, pois todos sabem que depois do divórcio com Camille Moreau, ele se jogou nos braços do empresário, as fotos dos dois nas Bahamas movimentaram os sites de fofoca por semanas. Eu amo as celebridades.

Eu: Nossos filhos vão ser lindos!

“A tia Lúcia faleceu em um acidente de carro meses depois da promessa, me deixando de herança o sonho e uma série de cartões postais já amarelados pelo tempo.”

       Antes de guardar o celular, checo as mensagens trocadas com o meu namorado que até agora não visualizou o aviso de que estou indo para sua casa. Então, vai ter uma surpresa, quem mandou não olhar as mensagens?
       O motorista para na frente do prédio sofisticado e me olha pelo retrovisor como se dissesse: é sério que você mora nesse palácio?
Para falar a verdade, quase cinco anos e eu ainda não me acostumei com o fato de o meu namorado ser podre de rico. Quando nos conhecemos no cursinho pré vestibular, não parecia grande coisa, mas agora que tenho a sensação de que todas as horas do mundo são insuficientes para a quantidade de coisas que preciso fazer, enquanto sua maior preocupação é se os amigos vão estar online pra jogar a próxima partida de Fighter ou sei lá o que ele joga. Mais Brilhante Que O Sol

FIQUE ATENTO PARA LER O PRÓXIMO CAPÍTULO!

       Mal entro no apartamento e sou nocauteada com o cheiro de queijo e calabresa. Miguel almoça pizza praticamente todos os dias e mesmo assim o tanquinho continua perfeito com os seis gominhos, ele tem a tarde livre e uma academia particular, isso explica o abdome definido apesar da péssima alimentação.
— Amor? — ele chama saindo da cozinha para me encontrar na sala.

       Tento ignorar que já passa de meio dia e meu namorado está só de cueca com um pedaço de pizza na mão. O apartamento está um caos, parece que a faxineira não deu as caras essa semana e a mão dele vai cair se guardar os próprios sapatos. Começo recolher os pertences espalhados pela sala enquanto Miguel corre para fechar o notebook, ele sabe o quanto eu implico com essa bagunça, mas hoje não, só quero me espalhar no sofá.
— Tem pizza.
— Estou doente.
       Minha voz soa esquisita, meio grossa pela rouquidão e sinto minha temperatura me cozinhar por dentro. Estava esperando que Miguel pegasse minha sopa e colocasse no microondas, mas ele se senta ao meu lado e continua comendo pizza normalmente. Não sei por que ainda espero tanto. Mais Brilhante Que O Sol

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