Vinho de Cereja – Capítulo três
10.10.2016

Capítulo Um

Capítulo Dois

Capítulo Três

Linhas tênues

 

– Você não vai nem fingir que vai pegar sua carteira? – Logan grita a plenos pulmões.

– Você falou que pagaria!

– Você podia pelo menos fingir que íamos dividir a conta e esperar que eu falasse: “Não, deixa comigo.” Francamente!

O casal de velhinhos que está na mesa de frente para o caixa nos observa com curiosidade e eu lhe dou um tapa na cabeça por me fazer passar vergonha. Depois de toda essa cena, Logan entrega algumas notas amassadas para Margarete que como costume suspira e diz que nós somos o casal mais lindo que ela já viu. Abro a boca para explicar pela milésima vez que somos apenas amigos, mas desisto porque há meses deixei de me importar, ela nunca vai enxergar além do que quer ver.

Quando saio pela porta, um ventinho gelado atravessa minha pele. Apesar de o dia estar ensolarado, faz frio e esse truque é péssimo porque por sentir frio, eu nunca acho que o sol está quente o suficiente e sempre acabo me queimando. Entrelaço os meus braços aos de Logan e fazemos o percurso de volta ao meu apartamento cantando as melhores músicas do Bon Jovi.

Faltando duas esquinas para chegar ao meu prédio, ele para abruptamente.

– Espera. Essa música está na minha cabeça e ela é sensacional – ele diz massageando as têmporas.

– Vai em frente – o encorajo.

If you leave me now / you’ll take away the biggest part of me / oooh no, baby please don’t go…

Explodo em uma gargalhada super alta. Ele é impossível!

– Ah, qual é? Vamos lá! – ele diz entrelaçando nossas mãos – And If you leave me now / You’ll take away the very heart of me…

– Logan, você é doido.

Oooh no, baby please don’t go / oooh girl, I just want you to stay…

Ele me gira no meio da rua me fazendo rir ainda mais alto e eu acabo não resistindo e cantando com ele:

A love like ours is love that’s hard to find / how could we let it slip away / We’ve come too far to leave it all behind…

Quando terminamos a cantoria, minha barriga e minhas bochechas doem de tanto rir. Voltamos a caminhar, dessa vez, lado a lado, com as mãos nos bolsos do casaco. Paramos em frente ao meu prédio e olhamos inconscientemente para a sebe que cresce descontroladamente pelo muro e nos abraçamos bem forte. É como se nada tivesse mudado quando estou com Logan, como se eu nunca tivesse flagrado meu noivo com outra.

– Estou tão feliz por você, Lo.

A lição mais importante que aprendi na vida, retirei de uma comédia romântica: estou feliz por você estar feliz. Dizer isso significa que eu não estou feliz em uma situação geral, porém aceito. Aceito que Logan finalmente tenha seguido em frente, que esteja pronto para entregar seu coração para alguém, mas também estou insegura. Ele é impulsivo e não quero que entregue seu coração por inteiro de uma vez, mesmo sabendo que nesse instante, eu sou a pessoa mais hipócrita do mundo.

– Quero que me prometa que nunca vai deixar suas covinhas desaparecerem. – ele diz acariciando minhas bochechas. Quero que você fique feliz a ponto de elas aparecerem a todo momento…

Sinto um arrepio na minha nuca e como se esse fosse o estímulo que eu precisasse, sorrio sentindo minhas bochechas se afundarem. Ele passa o dedão bem no furinho da minha bochecha direita, acariciando com sua mão levemente áspera. O ponto que nunca considerei como sensível, de repente é o lugar mais quente do meu corpo. De modo que o meu sangue agora está todo concentrado no rosto.

– Queria que você se visse através dos meus olhos, Gi… Ai você saberia o quanto você é linda.

Minhas pernas tremem um pouco. Logan e eu sempre nos tocamos com liberdade, então porque tudo parece tão diferente agora? E por que eu estou pensando que posso beijá-lo agora? Balanço a cabeça gentilmente, afastando minha pele do seu toque e coloco na minha cabeça que estou procurando um step pro meu pé na bunda, que estou me sentindo carente depois de ter flagrado meu noivo com outra e que Logan me tratando desse jeito é tudo o que eu preciso. Mas ele não pode ser esse homem. Beijo sua bochecha e digo um tchau baixinho.

Subo para meu apartamento cheia de minhocas na cabeça. Me pego encarando meu reflexo no espelho do elevador, meu rosto voltando a cor normal, embora ainda exiba manchas vermelhas nas bochechas e na testa. Abro um sorriso forçado e toco a mesma covinha que minutos atrás Logan tocara. Nada. Minhas mãos estão geladas, tudo o que eu sinto é o contato físico. Será que eu sempre fui sensível nesse ponto? E então percebo que ninguém nunca deu a atenção que Logan acabara de dar ao meu rosto.

Entro em casa tentando desanuviar a minha mente, tranco a porta e quando me viro para ir até a cozinha, meu coração quase sai pela boca. É claro que estaria aqui, ele tem a chave. Coloco próprias minhas chaves no balcão da cozinha, abro o armário, tiro o copo de lá e o encho na torneira do filtro. Bebo longos goles sentindo o olhar dele observando cada movimento meu enquanto tento organizar minha cabeça.

– O que você está fazendo aqui, Daniel? – digo colocando o copo na pia e encontrando coragem para olhá-lo pela primeira vez desde que entrei em casa.

Ele está de banho tomado, com roupa de ir para o trabalho. São quase onze horas, tarde demais pra ele ir ao escritório e cedo demais para estar aqui plantado no meu apartamento. Fora isso, está absolutamente comum, nada mudou. Eu esperava que ele se parecesse menos humano agora? Talvez, esteja um pouco decepcionada por ele continuar lindo, os cabelos loiros impecáveis, os olhos azuis mais brilhantes do que nunca.

– Não consegui ir trabalhar. Tentei te ligar, seu celular estava desligado, entendi que você não queria falar comigo naquele momento – ele se explica olhando para todos os cantos da casa, menos para mim, mas está controlado, como se tivesse decorado um discurso na frente do espelho.

Tudo nele sempre foi assim, calmo, controlado, frio, ensaiado. Parece que eu o enxergava através de um véu e que agora consigo o enxergar claramente.

– Sagaz – digo sarcasticamente parada na porta sem conseguir me mexer. – Mas meu celular continua desligado, assim como eu continuo sem querer falar com você.

– Eu devia ter vindo ontem… – ele diz se levantando.

– Não. Nem ontem, nem hoje, nem nunca mais. Sai da minha casa – digo tentando aumentar nossa distancia, enquanto ele tenta se aproximar.

– Não. Eu só queria…

– Você tem ideia de como eu estou me sentindo, Daniel? De como… Você tem ideia do que eu escutei? Do que eu vi?

Eu odeio você. Eu odeio você. Eu. Odeio. Você.

– Eu quero perguntar várias coisas, mas sei que você não vai ter as respostas que eu preciso, então vou fazer só as perguntas básicas: Por que você me deixou planejar tudo se sabia que nunca ia acontecer? Por que você dizia que me amava todas as manhãs se era mentira? – começo a me exaltar.

– Não é mentira! Eu amo você, Giovana! Mas…

– Se precisa ter um mas depois da frase não é o suficiente.

– Eu só queria uma fantasia. Nós estamos juntos há tanto tempo, eu só queria…

Fantasia? Você sempre foi suficiente pra mim… Você tem ideia de que eu olhei um vestido? Que eu fui a uma prova de bolos? Eu nunca tive o sonho de casar, Daniel! Era o seu sonho e eu o tomei como se fosse meu! – esbravejo.

Ele parece exausto agora que parou de tentar manter a pose. O cabelo começa a cair sob seus olhos e ele está começando a ficar suado.

– Eu cometi um erro, OK? Um erro entre um milhão de acertos. Eu te faço feliz, eu faço tudo o que você quer. Eu vim pedir uma segunda chance, não precisa ser agora, mas… Por favor – ele pede desesperado.

– Daniel…

– Todo mundo merece uma segunda chance.

– Era isso que você estava fazendo? Me dando uma segunda chance enquanto trepava com outra na nossa cama? Na cama que na noite anterior a gente tinha transado. Ou você me deu uma chance quando levou ela pro mesmo banheiro onde a gente dividia o chuveiro? Eu não tive uma segunda chance. Acho que ficamos quites aqui e você precisa ir embora – digo escancarando a porta.

Ele não se mexe. Eu não me mexo. Não gosto dessa energia que está circulando entre nós dois. Não gosto de olhar para ele agora e não gosto de sentir minha garganta apertada, meus nervos à flor da pele, de quem ele me transformou.

– Olha… Acho que a gente não precisa fazer isso agora – digo me acalmando.

– A gente tá há tanto tempo juntos. Sei que sentimento não apagou assim de uma hora pra outra. Me dá uma chance de consertar… – ele pede.

Não tem conserto.

– Vamos deixar a poeira baixar, tá bom? Eu preciso organizar umas coisas e acho que vai ser bom pra você colocar a cabeça no trilhos também.

– Quanto tempo? – ele pergunta esperançoso.

– Não começa…

– Fica com o anel. – Ele diz tirando a joia do bolso. – Não precisa usar. – ele acrescenta ao notar minha expressão. – Só fica com ele.

Pego o anel porque é o único jeito de não prolongar o momento.

– Você precisa ir agora.

– Eu sei. Só quero te pedir mais uma coisa.  Não beija…

Inacreditável

– Você não está na posição de me pedir isso.

– Só não beija o Logan. Não fica com ele.

Franzo o cenho em confusão.

– De onde você tirou isso?

– Vocês tem essa ligação, eu me habituei no decorrer dos anos. Mas… Promete.

– Eu prometo. – Digo sem pensar duas vezes. – Não é isso que eu e o Logan somos.

No momento que as palavras saem da minha boca, elas soam erradas.

 

É a quarta vez ou quinta vez que abro a porta da geladeira e encaro a garrafa de água, metade de uma cenoura e um vidro de ketchup. Droga! Eu deveria ter ficado com aquelas compras no final das contas. Fecho a geladeira e enquanto decido qual é a melhor solução: ir ao mercado ou comprar uma pizza. Meu celular toca e o rosto de Logan aparece na tela.

– Oi Chicago – tiro sarro.

– Ahhhh… Você acha mesmo que isso é uma ofensa? Pois é um elogio e eu sei que tenho ótimas habilidades vocais. E se me permite dizer, orais também. Muito Obrigado.

– Logan? Eu nunca iria permitir que você discusasse sobre as suas habilidades orais, você pode, inclusive, guardar sua língua e suas tecnologias dentro da boca. Muito obrigada.

– Então ela está nervosinha! – Ele provoca. – Isso pode significar três coisas: TPM, fome e visitinha do ex babaca.

– Bingo! Espera. Não é estranho você saber meu calendário menstrual?

– Acho que não. Sou um homem precavido e estou em missão: acabei de comprar um pote de sorvete de tablito.

– Hummmm! – gemo de brincadeirinha.

– A Laura está fazendo comida mexicana para três no meu apartamento – ele diz em seguida.

O que? Eu sempre faço comida mexicana no apartamento dele.

– Hum… – solto um muxoxo.

– E talvez… Talvez, eu tenha deixado um olhoroxonoseuexnamorado.

– Você o que? Parece que eu entendi que você deu um soco no olho do Daniel, mas entendi errado, eu acho.

Silêncio.

– Logan? Ah puta que pariu!

– Não pira! Ele tem um cruzado de direita incrível, estamos na boa, sem vinganças futuras.

Não dá pra acreditar nos homens da minha vida!

– O que? Logan! Para… Vocês são o que? Homens das cavernas agora?

– Estou indo te buscar agora.

– Não, Logan! Você tá

Mas ele desligou.

Meu dia acaba de receber um upgrade de merda porque vou ter que conhecer a namoradinha do Logan. Abro a geladeira de novo e decido que o melhor a se fazer é ir melhorar minha aparência.

Depois de entrar rapidão no chuveiro, prendo os cabelos em um coque e penso em Bea. Ela me ajudaria com essa missão ridícula porque Logan salvou ela do Guga em uma festa em que o idiota bebeu demais e depois disso, ficamos os três inseparáveis. Ela nunca iria aceitar essa garota nova, a não ser que ela seja espetacular e essa é a minha função hoje: avaliar a Laura. Troco de roupa umas três vezes antes de me sentir patética e confusa: pra quem estou me arrumando? É só um encontro com Logan. O encontro em que vou conhecer sua namorada.

Decido por shorts pretos de cintura alta e a camiseta que ganhei do Logan no meu último aniversário: ela é cinza e tem desenhos de conchas nos peitos, como se fosse um biquíni de uma sereia. Aproveito para soltar meus cabelos e usar pela primeira vez, os grampos que Bea me enviou da Irlanda, com pequenos arranjos de estrelas do mar nas pontas. Depois de passar rímel e um lip balm rosinha, encontro meu celular e há três mensagens não lidas, todas do Logan.

Ele: Me enrolei aqui.

Ele: Já já estou ai.

Ele: Meia hora.

Essa última chegou há três minutos. Me olho no espelho e começo a mexer no cabelo. Não. Não vou fazer isso, se eu ficar em casa vou acabar inventando mil desculpas para não ir. Respondo as mensagens.

Eu: O mecânico buscou meu carro hoje a tarde, chamando um Uber.

Eu: Não se preocupe.

 

Agradeço o motorista quando ele me deixa na porta da casa do Logan. Eu adoro a casa dele, é afastada da cidade, em um lugar repleto de verde e ruas calmas. Estou um pouco nervosa ao bater na porta, mas logo me acalmo quando ele atende seguido de Estevão, seu Golden Retrivier.

– Ei, lindão! Que saudade de você! – digo abraçando meu afilhado de quatro patas. – Seu papai tá cuidando bem de você? Hem?

– Qualquer dia desses eu vou cobrar esse mesmo tratamento pra mim – Logan diz fazendo beicinho.

Olho para ele que está usando um jeans preto, camiseta cinza e o Boné do Los Angeles Lakers que dei pra ele no natal. O canto inferior do seu lábio está machucado do lado esquerdo.

– Awwwn tem pá voxê também, bubuzinho – digo apertando suas bochechas violentamente para olhar melhor o machucado.

– Bom, não é como eu esperava, no final das contas – ele diz fechando a porta e me abraçando.

– Colocou gelo nisso dai?

– Você está linda. – Elogia, fugindo completamente da minha inspeção. – Vem, a Laura está na cozinha.

Pronto. Minha calma foge de mim em um passe de mágica, sigo Logan e quando entramos na cozinha, o cheiro de tempero me cerca e esqueço momentaneamente o que vim fazer aqui.

– Amor, nossa convidada especial chegou.

Amor? Ok. Estou de volta. Laura abre um sorriso imenso saindo de perto só fogão. Ela veste uma jardineira e está descalço. Ela é tão diferente de mim, avalio. Mais alta, esbelta, os cabelos em ondas largas e definidas, olhos azuis, mais nova. Uma versão bem melhorada, diga-se de passagem.

– A famosa Giovana! Ele não para de falar de você, confesso que já estou um pouco apaixonada. – ela me abraça forte. Um abraço muito aconchegante e convidativo.

– Não acredite em tudo o que ele fala – a alerto.

Ele fala de mim! Meu coração bate descompassado. Logan distribui copos de doses, limão e sal entre nós. Laura corre para mexer uma panela, mas logo está de volta para virarmos a dose de tequila.

– À recomeços – Logan brinda.

Jogo a cabeça para trás e deixo a tequila queimar por onde passa, minha garganta, meu peito e meu estomago. Sugo o limão e o jogo no lixo.

– Meu Deus! Você é tão adorável. Não faz careta! – Laura observa.

– Anos e anos de amizade com o Logan fizeram de mim uma profissional.

– Ela bebe como uma campeã – Logan elogia.

Aos poucos Laura volta para a cozinha e eu a observo se movimentando. O modo como ela pica a salsa, como corta os tomates, como vai da pia ao fogão com movimentos leves e calmos. Laura é graciosa e confortável  em sua própria pele. Ela não me parece ansiosa, é segura.

– Precisa de ajuda? – ofereço. – O que está fazendo?

– Hoje iremos comer a boa e velha comida mexicana. Já estou quase acabando e Logan colocou a mesa lá fora. Você pode sentar e esperar – ela me dispensa e eu fico um pouco ofendida, me sentindo inútil.

– Ou dançar comigo – Logan vem ao meu socorro e me puxa até a sala. Ele coloca pra tocar Jack and Wilson do Hozier e me faz gargalhar.

– Não sei porque você gosta tanto desse cara, mas estou dentro – justifica

Fazemos um rodopio exagerado e nos abraçamos para dançar coladinhos. Tenho certeza de que estamos totalmente fora do ritmo, mas parece certo. Me estico um pouco para olhar o cantinho machucado em sua boca.

– Não se preocupa – ele diz escondendo o rosto ao apoiar o queixo no topo da minha cabeça.

– Você não pode me pedir isso, eu sou uma máquina de preocupação ambulante.

– Você não quer saber como ele está?

Balanço a cabeça negativamente porque no fundo estou satisfeita por o Daniel ter um ferimento exterior, só pra variar. Descanso a cabeça em seu peito, engulo seco várias vezes e então meio que admito.

– Ela é ótima, Lo. A Laura.

– Viu? Eu também sei conquistar uma garota.

– E quem disse que você não sabia? – pergunto surpresa.

– Você. Quando nos conhecemos foi imune ao meu charme…

Minha bochecha descansa em seu ombro e continuamos balançando em  ritmo calmo. A verdade é que eu nunca fui imune ao seu charme, afinal ele é meu melhor amigo. Ele me conquistou com suas piadas ruins, seu ombro amigo e principalmente com sua lealdade.

– Eu te achei super gostoso – confesso.

– Eu tentei transar com você e você me deu as costas.

Tentou?

– E por que não tentou de novo? – decido ir por outro caminho.

– Você é importante demais pra mim…

Nosso momento acaba quando Laura grita da cozinha:

– A comida está na mesa, crianças!

Logan me solta sem cerimonia, como se a nossa bolha nunca tivesse existido, enquanto eu estou uma confusão de hormônios, suor e recordações que não deveriam estar ali. No dia em que ele foi pro quarto com a Carol, eu sempre tive a lembrança de que estávamos conversando, embora não lembrasse qual era o assunto, mas agora consigo me lembrar que a gente não estava conversando, a gente ia se beijar! Mas a Carol chegou e depois eu comecei a conversar com o Dani…

Laura coloca uma travessa na mesa e abraça o Logan que se apressa em beijá-la na boca. Eu desvio o olhar, notando a mesa posta com uma toalha xadrez e pratos que não combinam entre si, mas que de algum modo faz com que tudo esteja harmonioso.

– Você fez nevada? – Logan pergunta admirado.

Ela confirma com a cabeça e serve três copos.

– Às amizades – ela brinda.

– Às duas mulheres da minha vida – Logan completa. E nós brindamos às duas coisas.

Me sento de frente para o casal e começamos a nos servir com burritos.

– Giovana, não sei se o Logan te falou, mas sou vegetariana. Então quem cozinhou a carne de vocês foi o Logan, já peço desculpas antecipadamente. Ele é um desastre, mas tenho esperanças de conseguir domesticá-lo – ela brinca.

– Tenho a melhor professora – ele infla seu ego.

Não consigo dizer nada, então ocupo minha boca com nachos.

– Está perfeito, não se preocupe – consigo murmurar.

Depois de alguns minutos de silencio constrangedor – pelo menos pra mim – porque eles parecem bem confortáveis trocando caricias. Tomo um gole de água e decido iniciar uma conversa.

– Você come outros produtos de origem animal, Laura?

– Sim, leite… Mas quero me abster também, é um pouco mais difícil, mas a causa é boa.

– A Laura é ativista, Gi. Ela faz parte de uma ONG que resgata animais da rua – Logan completa.

Ai meu Deus! Ela é perfeita.

Deixo o assunto morrer, mas o silêncio não volta a fazer parte da mesa por que eles se apressam a me contar sobre como se conheceram, como as coisas se desenvolveram e como eles passaram a tarde mais fascinadamente romântica essa tarde porque Logan dirigiu alguns quilômetros até o topo da colina só para eles apreciarem o por-do-sol enquanto desfrutavam de um piquenique.  Não falei muito, alguns aaaahs e uaus só para mostrar que eu estou ouvindo.

Quando limpamos nossos pratos, Logan e eu tiramos a mesa e Laura começa a lavar a louça.

– Não. Laura! Vocês cozinharam, eu lavo a louça – me prontifico.

– Imagina! Você é a nossa convidada.

Convidada? O copo que está na minha escorrega e se espatifa no chão.

– Merda! – digo me abaixando rapidamente para recolher os cacos – Me desculpa, eu…

Logan se coloca na minha frente e aperta meus pulsos me fazendo largar os cacos.

– Você vai se cortar.

– EU NÃO SOU UMA MALDITA BONECA DE PORCELANA! PARA DE TENTAR ME PROTEGER.

Eu não sei de onde isso veio, demorei pra entender que o grito havia vindo de mim e só entendi quando notei as expressões confusas e assustadas dos dois.

– Desculpa, eu não… Eu só estou…

– Ta tudo bem, Giovana. – Laura me abraça, mas eu fico estática. – A gente entende, não é fácil com tudo o que você tem passado.

Com tudo o que eu tenho passado? O que ela quer dizer? Basta olhar para o Logan para saber que ele contou sobre meu término e ela também percebe que não deveria ter aberto a boca e se afasta. Tudo é tão embaraçoso.

– Preciso usar o banheiro – digo passando por ele.

– Gi…

Me tranco no banheiro e me olho diretamente pra pia. Duas escovas de dentes. Tá de sacanagem. Lavo o meu rosto e o enxugo na toalha que já não tem mais o cheiro cítrico do meu amaciante, é lavanda. Sento no vaso e peço um Uber. Que chegará em um minuto.

Logan e Laura estão na cozinha, os cacos não estão mais no chão e a louça está organizada na pia, quando saio do banheiro.

– Preciso ir – anuncio.

– Eu te levo.

– Não… Eu acabei de pedir um Uber.

– Gi…

– Ta tudo bem, Logan. – Digo passando por ele. – Laura, me desculpe mais uma vez. O jantar estava incrível, eu só não estou muito… É muito recente e, enfim. Foi um prazer. – Decido encurtar pra não ficar mais embaraçoso – se é que é possível

Ela sorri delicadamente e eu odeio a sua expressão, como se ela realmente me entendesse.

– Vou te levar até a porta – Logan diz com as mãos nos bolsos e eu o acompanho de perto. estevão está dormindo no tapete do lado da porta e eu me abaixo para acariciar suas orelhas.

– Gi… Eu não quis… Me desculpa, eu não devia ter contado pra ela, não estava pensando direito, só achei que ela precisasse de uma justificativa pra eu ter passado uma noite fora.

Ele precisava dar uma justificativa. Essa frase me parece errada, mas comprimo os meus lábios porque não estou chateada por ele ter contado pra ela. Estou chateada porque contar algo tão pessoal sobre minha vida pra uma pessoa que eu nem conheço é só uma justificativa. Imagino ele chegando em casa fazendo todo um discurso de “coitada, o cara que ela é apaixonada por anos tava trepando com outra.” Meu estomago revira porque no fundo sei que ele não falou essas palavras, mas também sei que ele não disse algo como “minha melhor amiga está de coração partido e precisava de mim.”

– Lo? Eu vou viajar.

A ideia de viajar tinha passado pela minha cabeça algumas vezes essa tarde, mas não como uma ideia concreta. Só agora percebo que essa ideia estava alfinetando um canto do meu cérebro, dizendo que eu preciso me afastar e colocar tudo no lugar. Um relacionamento é algo que muda as pessoas e eu estou há anos com o Daniel, não sei como é está sozinha, como é me conhecer 100%. Por anos eu estive pensando por dois e agora preciso pensar no meu singular.

– O que? Pra onde?

– Não estou conseguindo me concentrar aqui e tenho um prazo para cumprir… O chalé dos meus pais está fechado há um tempo, preciso ir lá de qualquer jeito.

Meus pais tem um chalé no interior que está abandonado. Nós passamos vários finais de semana lá quando eu era criança, mas depois fomos deixando de lado. Eu sempre amei aquele lugar, roubei o Logan algumas vezes para ele ir comigo e passávamos o final de semana inteiro entre caminhadas, banhos de cachoeiras e um prato de comida na mão, compartilhando várias histórias da nossa adolescência. Nossos primeiros beijos, nossos primeiros corpos nus e várias confissões idiotas, do tipo “eu fiquei com medo do pinto do Matheus.” A noite dividíamos o cobertor e ficávamos  deitados pertinho de uma fogueira.

– Por quanto tempo?

– Um mês e meio – digo calculando rapidamente.

– Uau… Isso são… seis sábados?

– Exatamente. Eu volto a tempo para a chegada da Bea – prometo.

– O que eu vou fazer sem você?

Ele parece genuinamente confuso e isso me faz rir um pouco.

-Tenho certeza de que a Laura não está reclamando.

– Quando pretende ir?

– Amanhã.

A buzina nos assusta, dando o choque de realidade necessário.

– É o Uber. Preciso ir – digo abraçando-o e ele me abraça com mais força, enterrando o rosto no meu cabelo. – Ai meu Deus, não é como se eu fosse mudar de país.

– Eu sei, eu sei, mas é que parece tão errado você saindo assim.

Eu também sinto isso.

– Está tudo mais que certo. – O tranquilizo. – Amo você, Lo.

– Amo você, Gi. Te vejo em seis sábados.

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