Vinho de Cereja – Capítulo três
10.10.2016

Capítulo Um

Capítulo Dois

Capítulo Três

Linhas tênues

 

– Você não vai nem fingir que vai pegar sua carteira? – Logan grita a plenos pulmões.

– Você falou que pagaria!

– Você podia pelo menos fingir que íamos dividir a conta e esperar que eu falasse: “Não, deixa comigo.” Francamente!

O casal de velhinhos que está na mesa de frente para o caixa nos observa com curiosidade e eu lhe dou um tapa na cabeça por me fazer passar vergonha. Depois de toda essa cena, Logan entrega algumas notas amassadas para Margarete que como costume suspira e diz que nós somos o casal mais lindo que ela já viu. Abro a boca para explicar pela milésima vez que somos apenas amigos, mas desisto porque há meses deixei de me importar, ela nunca vai enxergar além do que quer ver.

Quando saio pela porta, um ventinho gelado atravessa minha pele. Apesar de o dia estar ensolarado, faz frio e esse truque é péssimo porque por sentir frio, eu nunca acho que o sol está quente o suficiente e sempre acabo me queimando. Entrelaço os meus braços aos de Logan e fazemos o percurso de volta ao meu apartamento cantando as melhores músicas do Bon Jovi.

Faltando duas esquinas para chegar ao meu prédio, ele para abruptamente.

– Espera. Essa música está na minha cabeça e ela é sensacional – ele diz massageando as têmporas.

– Vai em frente – o encorajo.

If you leave me now / you’ll take away the biggest part of me / oooh no, baby please don’t go…

Explodo em uma gargalhada super alta. Ele é impossível!

– Ah, qual é? Vamos lá! – ele diz entrelaçando nossas mãos – And If you leave me now / You’ll take away the very heart of me…

– Logan, você é doido.

Oooh no, baby please don’t go / oooh girl, I just want you to stay…

Ele me gira no meio da rua me fazendo rir ainda mais alto e eu acabo não resistindo e cantando com ele:

A love like ours is love that’s hard to find / how could we let it slip away / We’ve come too far to leave it all behind…

Quando terminamos a cantoria, minha barriga e minhas bochechas doem de tanto rir. Voltamos a caminhar, dessa vez, lado a lado, com as mãos nos bolsos do casaco. Paramos em frente ao meu prédio e olhamos inconscientemente para a sebe que cresce descontroladamente pelo muro e nos abraçamos bem forte. É como se nada tivesse mudado quando estou com Logan, como se eu nunca tivesse flagrado meu noivo com outra.

– Estou tão feliz por você, Lo.

A lição mais importante que aprendi na vida, retirei de uma comédia romântica: estou feliz por você estar feliz. Dizer isso significa que eu não estou feliz em uma situação geral, porém aceito. Aceito que Logan finalmente tenha seguido em frente, que esteja pronto para entregar seu coração para alguém, mas também estou insegura. Ele é impulsivo e não quero que entregue seu coração por inteiro de uma vez, mesmo sabendo que nesse instante, eu sou a pessoa mais hipócrita do mundo.

– Quero que me prometa que nunca vai deixar suas covinhas desaparecerem. – ele diz acariciando minhas bochechas. Quero que você fique feliz a ponto de elas aparecerem a todo momento…

Sinto um arrepio na minha nuca e como se esse fosse o estímulo que eu precisasse, sorrio sentindo minhas bochechas se afundarem. Ele passa o dedão bem no furinho da minha bochecha direita, acariciando com sua mão levemente áspera. O ponto que nunca considerei como sensível, de repente é o lugar mais quente do meu corpo. De modo que o meu sangue agora está todo concentrado no rosto.

– Queria que você se visse através dos meus olhos, Gi… Ai você saberia o quanto você é linda.

Minhas pernas tremem um pouco. Logan e eu sempre nos tocamos com liberdade, então porque tudo parece tão diferente agora? E por que eu estou pensando que posso beijá-lo agora? Balanço a cabeça gentilmente, afastando minha pele do seu toque e coloco na minha cabeça que estou procurando um step pro meu pé na bunda, que estou me sentindo carente depois de ter flagrado meu noivo com outra e que Logan me tratando desse jeito é tudo o que eu preciso. Mas ele não pode ser esse homem. Beijo sua bochecha e digo um tchau baixinho.

Subo para meu apartamento cheia de minhocas na cabeça. Me pego encarando meu reflexo no espelho do elevador, meu rosto voltando a cor normal, embora ainda exiba manchas vermelhas nas bochechas e na testa. Abro um sorriso forçado e toco a mesma covinha que minutos atrás Logan tocara. Nada. Minhas mãos estão geladas, tudo o que eu sinto é o contato físico. Será que eu sempre fui sensível nesse ponto? E então percebo que ninguém nunca deu a atenção que Logan acabara de dar ao meu rosto.

Entro em casa tentando desanuviar a minha mente, tranco a porta e quando me viro para ir até a cozinha, meu coração quase sai pela boca. É claro que estaria aqui, ele tem a chave. Coloco próprias minhas chaves no balcão da cozinha, abro o armário, tiro o copo de lá e o encho na torneira do filtro. Bebo longos goles sentindo o olhar dele observando cada movimento meu enquanto tento organizar minha cabeça.

– O que você está fazendo aqui, Daniel? – digo colocando o copo na pia e encontrando coragem para olhá-lo pela primeira vez desde que entrei em casa.

Ele está de banho tomado, com roupa de ir para o trabalho. São quase onze horas, tarde demais pra ele ir ao escritório e cedo demais para estar aqui plantado no meu apartamento. Fora isso, está absolutamente comum, nada mudou. Eu esperava que ele se parecesse menos humano agora? Talvez, esteja um pouco decepcionada por ele continuar lindo, os cabelos loiros impecáveis, os olhos azuis mais brilhantes do que nunca.

– Não consegui ir trabalhar. Tentei te ligar, seu celular estava desligado, entendi que você não queria falar comigo naquele momento – ele se explica olhando para todos os cantos da casa, menos para mim, mas está controlado, como se tivesse decorado um discurso na frente do espelho.

Tudo nele sempre foi assim, calmo, controlado, frio, ensaiado. Parece que eu o enxergava através de um véu e que agora consigo o enxergar claramente.

– Sagaz – digo sarcasticamente parada na porta sem conseguir me mexer. – Mas meu celular continua desligado, assim como eu continuo sem querer falar com você.

– Eu devia ter vindo ontem… – ele diz se levantando.

– Não. Nem ontem, nem hoje, nem nunca mais. Sai da minha casa – digo tentando aumentar nossa distancia, enquanto ele tenta se aproximar.

– Não. Eu só queria…

– Você tem ideia de como eu estou me sentindo, Daniel? De como… Você tem ideia do que eu escutei? Do que eu vi?

Eu odeio você. Eu odeio você. Eu. Odeio. Você.

– Eu quero perguntar várias coisas, mas sei que você não vai ter as respostas que eu preciso, então vou fazer só as perguntas básicas: Por que você me deixou planejar tudo se sabia que nunca ia acontecer? Por que você dizia que me amava todas as manhãs se era mentira? – começo a me exaltar.

– Não é mentira! Eu amo você, Giovana! Mas…

– Se precisa ter um mas depois da frase não é o suficiente.

– Eu só queria uma fantasia. Nós estamos juntos há tanto tempo, eu só queria…

Fantasia? Você sempre foi suficiente pra mim… Você tem ideia de que eu olhei um vestido? Que eu fui a uma prova de bolos? Eu nunca tive o sonho de casar, Daniel! Era o seu sonho e eu o tomei como se fosse meu! – esbravejo.

Ele parece exausto agora que parou de tentar manter a pose. O cabelo começa a cair sob seus olhos e ele está começando a ficar suado.

– Eu cometi um erro, OK? Um erro entre um milhão de acertos. Eu te faço feliz, eu faço tudo o que você quer. Eu vim pedir uma segunda chance, não precisa ser agora, mas… Por favor – ele pede desesperado.

– Daniel…

– Todo mundo merece uma segunda chance.

– Era isso que você estava fazendo? Me dando uma segunda chance enquanto trepava com outra na nossa cama? Na cama que na noite anterior a gente tinha transado. Ou você me deu uma chance quando levou ela pro mesmo banheiro onde a gente dividia o chuveiro? Eu não tive uma segunda chance. Acho que ficamos quites aqui e você precisa ir embora – digo escancarando a porta.

Ele não se mexe. Eu não me mexo. Não gosto dessa energia que está circulando entre nós dois. Não gosto de olhar para ele agora e não gosto de sentir minha garganta apertada, meus nervos à flor da pele, de quem ele me transformou.

– Olha… Acho que a gente não precisa fazer isso agora – digo me acalmando.

– A gente tá há tanto tempo juntos. Sei que sentimento não apagou assim de uma hora pra outra. Me dá uma chance de consertar… – ele pede.

Não tem conserto.

– Vamos deixar a poeira baixar, tá bom? Eu preciso organizar umas coisas e acho que vai ser bom pra você colocar a cabeça no trilhos também.

– Quanto tempo? – ele pergunta esperançoso.

– Não começa…

– Fica com o anel. – Ele diz tirando a joia do bolso. – Não precisa usar. – ele acrescenta ao notar minha expressão. – Só fica com ele.

Pego o anel porque é o único jeito de não prolongar o momento.

– Você precisa ir agora.

– Eu sei. Só quero te pedir mais uma coisa.  Não beija…

Inacreditável

– Você não está na posição de me pedir isso.

– Só não beija o Logan. Não fica com ele.

Franzo o cenho em confusão.

– De onde você tirou isso?

– Vocês tem essa ligação, eu me habituei no decorrer dos anos. Mas… Promete.

– Eu prometo. – Digo sem pensar duas vezes. – Não é isso que eu e o Logan somos.

No momento que as palavras saem da minha boca, elas soam erradas.

(mais…)

Vinho de Cereja – Capítulo dois
28.09.2016

Capítulo Um

 

Capítulo 2

Ele não está tão a fim de você

 

Anos depois

Estou terminando de me vestir quando ouço a campainha tocar. Olho meu relógio de pulso: seis e meia da manhã. Tão pontual e tão cedo assim, só pode ser a Carol. Ela voltou do intercâmbio na França semana passada e quer me acompanhar no Pilates para conhecer, depois de ver minhas fotos no Instagram na quais estou em várias posições inusitadas.

Abro a janela do quarto para deixar o ar circular e para o dia me trazer boas vibrações, arrumo minha cama e dou uma olhada geral para ver se não deixei nada fora do lugar. Nos primeiros semestres da faculdade, eu e a Bea alugamos esse apartamento. Meses depois, ela ganhou uma bolsa para estudar fora e eu acabei ficando sozinha. Mesmo assim, não desisti da ideia porque simplesmente amo esse lugar. Não tem nada demais. É pequeno, mas tem janelas amplas que o deixa sempre iluminado e uma sacada que eu enchi de plantas. Gosto de acordar cedinho e tomar café na sacada, enquanto pego os primeiros raios de sol da manhã. Gosto mais ainda de me sentar entre as plantas, depois de um dia de trabalho pesado, de banho tomado e com uma taça de vinho branco nas mãos, aproveitando a brisa noturna.

Divido meu tempo entre trabalhos freelas – que se resume a alguns sites, logos e coisas pequenas – os cuidados de casa, Pilates e Daniel. Às vezes, me pego pensando em como viemos parar aqui. Anos atrás ele me chamou para sair, um cinema daqui, um jantarzinho dali… Tenho a sensação de que em algum momento, fechei os olhos para beijá-lo e quando acordei, três anos já tinham se passado. Nunca rolou um pedido de namoro oficial, é simples assim, estamos juntos. Ouço tons de voz alterados vindos da sala e é melhor eu sair rápido se quiser manter minha casa inteira.

– O que você está fazendo aqui? – Carol pergunta irritada.

– Ei, Carol. – Logan a cumprimenta com a voz cinicamente sonolenta. – Entra.

Há anos eu e Logan somos inseparáveis. Carol não esteve aqui para presenciar o amadurecimento da nossa amizade e deve está achando a situação toda bem confusa. Semanas depois de Logan ter entrado definitivamente para a nossa turma, ela viajou para França, logo Bea ganhou uma bolsa para estudar na Irlanda. Eu fiquei sozinha e depois da noite no chalé, eu e Logan acabamos desenvolvendo essa amizade, sendo ele, inclusive, meu cupido – mesmo contra vontade – da história com Daniel. Ele sabe tudo sobre mim e eu sei tudo sobre ele. Temos essa conexão que só pode ser de outras vidas. Já fomos parados algumas vezes para sermos questionados se somos namorados, mas o pensamento sequer passa pela nossa cabeça. Ele diz que eu sou inteligente demais pra ele e eu nunca conseguiria namorar alguém tão bonito. Mas não é como se Carol não soubesse, afinal viajamos juntos para alguns lugares e recheamos nossas redes sociais com fotos e boas lembranças.

Indo para a cozinha a vejo parada na porta. Logan está de frente para ela e de costas pra mim, usando uma calça jeans baixa, descalço e sem camisa, apoiando o braço no portal. Ele adora provocar. Ela me vê por baixo de seu braço e é a deixa que precisa para empurrá-lo violentamente e entrar no apartamento, mas Logan é Logan. Ele quase não se mexe e ela passa espremida por entre a porta e seu corpo sarado. Reviro os olhos, eles não podem ser adultos.

– Giovana, o que está acontecendo aqui? – ela diz como se fosse a mulher traída que acaba de pegar o marido no flagra com a melhor amiga

– Bom dia. – Digo enchendo a cafeteira com água e café. – Eu é que pergunto. O que está acontecendo aqui?

Carol coloca as mãos na cintura, vestindo roupas de ginástica justas e o cabelo preso em um rabo de cabelo alto e apertado. Está comicamente nervosa.

– O que esse palhaço tá fazendo semi nu na sua casa a essa hora da manhã? – ela diz adotando um tom acusatório.

– Logan não gosta de voltar dirigindo pra casa quando bebe, dai, ele passa a noite aqui no sofá – explico calmamente.

Logan mora longe do centro, é comum ele dormir no meu sofá às sextas ou sábados ou o final de semana inteiro. Já dormimos na mesma cama algumas vezes, começamos assistindo filme e quando vemos já amanheceu. Mas Logan tem o sono agitado, então o sofá acaba sendo a melhor opção. Carol bufa ao ver o lençol e o travesseiro que estão jogados no sofá.

– O Dani ligou, disse que vai se atrasar – Logan passa o recado se juntando a mim na cozinha.

– Que novidade! – meu namorado parece ser alérgico a pontualidade e isso me mata. – Lo? Veste a camisa – censuro depois de despejar café em uma caneca.

– Por causa dela? – ele pergunta indignado.

Deus me dê forças.

– Porque estamos saindo e você precisa manter a roupa no corpo, já falamos sobre isso.

– O Dani sabe desse arranjo de vocês? – Carol pergunta perplexa com nossa rotina.

– Sabe. Qual é o problema? Eu e o Logan somos amigos, não estamos fazendo nada de errado, Carol.

O café queima minha boca e eu praguejo baixinho, Logan se encosta na bancada exibindo os seis gominho da barriga sarada.

– Ela está assim só porque eu não quis comer ela na festa de despedida – ele diz coçando a barba.

– Logan! – chamo sua atenção.

Um dia antes de a Carol viajar para a França, nós fizemos uma festinha. Todos nós passamos dos limites com as bebidas, mas a Carol se superou. Lembro-me nitidamente de estar conversando com o Logan na varanda, não lembro sobre o que falávamos, mas estávamos perto demais. Ela chegou, colocou os braços no pescoço dele e o guiou até seu quarto. Quinze minutos depois, Logan voltou atordoado e me encontrou conversando com o Dani. Ele não contou o que aconteceu lá dentro, mas até agora eu achava que tinha rolado uma rapidinha, mas afinal de contas, nada aconteceu.

Suspiro. Carol sai pisando duro, soltando fogo pelas narinas e bate a porta com força.

– Precisava? – reclamo em vão porque ele parece bem satisfeito. – Tranca a porta. E veste a camisa – digo enquanto jogo o resto da minha xícara de café fora.

– Ei! Você volta que horas? – pergunta quando passo por ele.

– Não sei, lá pelas sete? Te mando mensagem.

– Você vai se sair bem, não fica nervosa.

Eu não tinha percebido que estava nervosa, até me sentir subitamente calma pelas palavras de Logan. Hoje vai ser minha primeira entrevista de emprego desde que tenho um diploma. E não é só por causa da entrevista, é que se tudo der certo eu vou ter um emprego. Um emprego de verdade! Isso é tão adulto. Eu tenho um noivo, estou prestes a ter um emprego e não tenho ideia de como lidar com isso. Parece meio bobo, é bobo! Afinal, moro sozinha há anos e tenho um noivo há meses, não é como se fosse repentino, é só que ter um emprego fixo, parece fazer com que tudo fique sério demais. Logan alcança meu pulso e brinca com meu relógio.

– Você é talentosa, Gi – ele diz buscando meus olhos, me fazendo abrir um sorriso radiante pra ele.

– Preciso ir. – Me despeço dando-lhe um beijo na bochecha. – Obrigada.

Pego minhas chaves e vou atrás da Carol.

*-*-*

Há algo de mágico quando o céu assume o tom violeta alaranjado no final da tarde, sempre fico hipnotizada com essa beleza. Abro a janela do carro quando me a próximo da ponte, o apanhador de sonhos pendurado no retrovisor dança com a brisa que entra. Eu adoro passar por aqui, o cheiro muda, a temperatura cai, mas mesmo assim me sinto aquecida pelas lembranças. Nessa ponte, anos atrás eu conheci o Logan e meses depois foi onde Dani disse que me amava pela primeira vez. Olhando agora o diamante na minha mão esquerda, sinto que está tudo certo e se encaminhando para um final feliz. Tomada por todas essas lembranças, conecto meu celular no carro e ligo para o meu noivo para avisar que cheguei na cidade antes do previsto e que finalmente podemos cozinhar o risoto de cogumelos que vimos na internet.

Chama até cair e esse é o empurrão que o destino precisava me dar para eu fazer uma surpresa. Paro no supermercado a um quarteirão do apartamento do Dani e depois de uma rápida inspeção pelas prateleiras, compro cogumelos, pimentão, tomates e queijo, a caminho do caixa, escolho uma garrafa de vinho branco. Perfeito! Enquanto passo as compras no caixa, ligo pro Logan.

– Olá, senhorita – ele atende prontamente, me fazendo sorrir porque o telefone mal chamou.

– Uau. Tava com o celular na orelha?

– Não me orgulho disso, mas confesso que sou rápido no gatilho.

– Sendo assim, acho que na despedida da Carol, rolou mais do você estava pronto para admitir hoje de manhã – tiro sarro.

– Você sabe que não –  sua risada vibra do outro lado da linha.

Agora eu sei que não. Todos esses anos, Logan odiou a Carol porque ela é uma megera com ele, mas verdade seja dita, ele não deixa barato. Não sei bem qual é o problema com os dois, mas suspeito que Carol não lidou bem com um fora, embora ela nunca vá admitir isso.

– Então… Parece que vamos trabalhar juntos, afinal – conto a novidade.

– Meus parabéns, mas eu já sabia – ele diz calmamente.

Depois de uma rodada de entrevistas, consegui emprego na agencia em que o Logan é alocado, mas eu vou trabalhar diretamente com um cliente.  Consegui pegar o rebranding de uma marca que fez sucesso nos anos noventa e agora está de volta ao mercado. Logan foi peça fundamental nessa conquista, ele mostrou meu trabalho de Lettering para um amigo, que tinha uma amiga que conhecia alguém da marca e me colocou na jogada.

– Eu só queria agradecer a força se não fosse você me indicado…

– O mérito é todo seu. Você, Giovana Teles, é uma sabichona talentosa.

– Oitenta e dois reais e trinta centavos, senhora – a moça do caixa anuncia. Insiro meu cartão na maquininha e informo débito.

– Estou no supermercado, vou tentar fazer um risoto, topa? – convido.

– Huum… Estou tentado, mas já tenho compromisso.

Quando Logan fala que tem compromisso é um código secreto para “vou transar hoje”. Em sua defesa, ele nunca deixou de sair conosco por causa de mulher. Ele sempre diz que amizade vem em primeiro lugar.

– Compromisso? Desde quando rabo de saia é compromisso, Logan?

Depois de um silêncio incômodo, ele solta:

– Acontece que esse rabo de saia… Talvez, seja diferente.

Caminho até meu carro com o celular preso entre meu ombro e a orelha enquanto equilibro minhas sacolas nas mãos. Essa informação me pega de surpresa. Consigo imaginar sua nuca ficando vermelha por ter me contado isso porque sinto minha própria nuca pegando fogo.

– Alô? – a voz dele soa tímida.

– Você está falando sério? – pergunto.

– Estou. Sai com ela algumas vezes, a gente…

Algo cresce no meu peito, sou tomada por uma ansiedade esquisita e não consigo controlar o impulso de fazer um milhão de perguntas. Por anos, nós nunca deixamos nada pra depois e agora meu melhor amigo está saindo com uma garota que eu nem faço ideia de quem seja.

– Algumas vezes? O que aconteceu com a famosa regra de não sair com a mesma garota duas vezes na mesma semana, nem quatro vezes no mesmo mês? E quando você ia me contar?

– Respira. Eu ia te contar amanhã, no café da manhã. – Ele faz uma pausa antes de perguntar desconfiado, – Ainda está de pé, né?

A tradição de tomar café da manhã começou em um sábado quando ainda estávamos na faculdade. Eu estava pilhada, estudando para uma prova quando Logan invadiu meu quarto avisando que eu precisava relaxar. Caminhamos alguns quarteirões, eu ainda meio preocupada com as linhas que precisava ler e ele tentando me fazer relaxar, inventando piadas e tentando descobrir o que eu pediria do cardápio. Durante todos esses anos, caminhamos algumas quadras, compramos café no Coffee Royal e seguimos em direção ao Carameldream também conhecido como melhor café da manhã da vida.

– Gi? – ele me coloca de novo na conversa.

– Claro. – digo balançado a cabeça, tentando me livrar do desconforto. – Claro!

– Bolo de banana cremoso com sorvete de creme? – ele tenta adivinhar meu pedido.

– Acho que você vai ter que esperar até amanhã para descobrir. Amo você, Lo.

– Amo você, Gi.

Fico sentada no banco do motorista alguns instantes antes de dar partida. Depois de anos presenciando o desfile interminável de modelos, médicas, garotas alternativas, atletas e aquela vez que ele saiu com uma proctologista de cinquenta anos, Logan está se amarrando. E isso é sério! Estou feliz porque ele merece. Logan merece todo o amor do mundo. Mas não posso ignorar o frio na minha barriga, eu vou ter que dividir meu melhor amigo. Encaro meu reflexo no retrovisor, minhas bochechas estão vermelhas, os olhos arregalados e pequenas gotas de suor povoam a minha testa. Dou partida no carro, deixando esses pensamentos egoístas para trás.

Em cinco minutos recolho tudo o que está jogado no banco de trás, para subir para o apartamento do Dani. Equilibro as sacolas de supermercados em um braço e minhas pastas e blazer no outro. O apartamento está quieto quando entro, coloco minhas pastas e o blazer no sofá e as compras no balcão da cozinha. Dani está em casa, sei disso porque suas chaves, carteira e celular estão sob o balcão, talvez esteja tirando uma soneca. Abro a porta do quarto com cuidado, os lençóis estão bagunçados e ouço o barulho do chuveiro ligado. Bingo! Sento na beiradinha da cama, louca para libertar meus dedos da opressão das botas. Quase reviro os olhos de prazer quando minha sola toca o chão gelado, eu amo ficar descalça, o Dani odeia. Prendo meu cabelo em um coque alto e vou até o banheiro, notando que a porta está só encostada. Ouço um ruído baixinho e a abro um pouco.

– Assim está gostoso?

A bile sobe na minha garganta. É a voz do Daniel. Pela fresta da porta, vejo uma calcinha na pia, calcinha essa que não me pertence. Cubro a boca. Mais gemidos. Mais palavras. As palavras que ele usava comigo. Usa comigo. Estou prendendo a respiração, minhas mãos começam a tremer e eu me afasto da porta como se ela tivesse me eletrocutado. Olho para a bagunça na cama, a mesma cama em que fizemos amor noite passada. Me afasto como se há qualquer momento esses lençóis pudesse criar vida própria e me estrangular. Pego minhas pastas e ao pegar o blazer, o anel no meu dedo grita, analiso a pedra preciosa… Incrível como o significado de um objeto muda com apenas uma atitude. Tiro o anel e o coloco em cima da mesinha de centro. Não quero ter que olhar pra ele de novo, não quero escutar uma explicação fajuta.

Atordoada, opto pelas escadas porque se eu ficar parada no elevador tenho a sensação de que o prédio inteiro vai desabar na minha cabeça. Não paro nem quando chego ao carro, as mãos ainda trêmulas parecem ter vida própria quando dão partida, fazendo os pneus cantarem, sabendo que só tem um lugar para onde quero ir.

Bato na porta do Logan, sem nem saber como consegui chegar aqui. Não derramei uma lágrima, mas sinto um bolo queimando minha garganta me sufocando. Ele abre a porta usando só uma calça de moletom, eu devo está péssima porque a cara que ele faz me despedaça.

(mais…)

VINHO DE CEREJA CAPÍTULO I
21.09.2016

Capítulo 1

Vinho de Cereja

O primeiro dia de aula do semestre é desolador. É hora de trocar o protetor solar e os óculos escuros por cadernos e óculos de grau. Mas também é a hora de reencontrar os amigos depois de longas férias – tão longas que a saudade dos familiares logo vira uma ansiedade terrível para nos livrarmos deles de novo.

Com uma última conferida no espelho, decido soltar minhas madeixas loiras sabendo que estarão embaraçadas ao mínimo sinal de vento. Dispenso a base e o pó compacto porque decidi não esconder mais as sardas que povoam meu nariz e se espalham pelas bochechas, mas essa atitude seria impensável no semestre passado. Meu cabelo deveria estar sempre arrumado e minhas imperfeições escondidas, mas qual é o sentido disso tudo? Eu fiquei quase três horas me arrumando para uma festa, para no final não ficar parecida comigo, definitivamente não quero ser essa pessoa. Avalio se está tudo certo com minha roupa, então pego minha mochila no chão e desço as escadas para encontrar meus pais que já estão a postos na cozinha.

– Bom dia! Como estou? – brinco fazendo uma pose em frente à mesa.

– Espetacular, Gio. – Meu pai diz baixando o jornal com um sorriso orgulhoso.

Minha mãe coloca uma cesta de pães na mesa e vem me dar beijos em ambas as bochechas.

– A Bea vem te buscar?  – ela pergunta arrumando a gola da minha jaqueta jeans.

– Uhum. Ela deve está chegando.

Mal fecho a boca e ouço o som da buzina. Engulo um copo de suco de laranja e me despeço dos meus pais dando-lhes beijos apressados. O fiat 500 da minha melhor amiga está estacionando na rua em frente a minha casa, aperto minha jaqueta no corpo e franzo o nariz ao notar que o sol não saiu hoje.

Adeus, verão.

vinho de cereja … vinho de cereja

– Bom dia! – cumprimento-a jogando minha bolsa no banco de trás.

– Ei! – Bea diz arrumando o espelho retrovisor que ela ajustou para passar batom. – Como você está se sentindo no primeiro dia de veterana? Tomara que tenha muitos calouros gatos pra gente dar uma espiadinha, né?

Ela dá partida animada invadindo um pouco da calçada ao sair.

– A julgar pela nossa turma de calouros, acho que podemos ter esperança.

O percurso até a Universidade Azuis é longo, levamos de cinquenta minutos à uma hora para chegar até o campus. Hoje vai ser uma hora porque paramos na cafeteria do centro da cidade para nos abastecermos com café. Como da última vez Bea desceu, então agora é minha responsabilidade comprar dois expressos com creme e caramelo em dobro. Normalmente, o Café Magnólia tem uma fila enorme, mas hoje dou sorte, só cinco pessoas na minha frente. Dez minutos depois estou de volta ao carro.

– Espera! Fecha o olho. – Bea ordena e eu obedeço. – Seu delineador borrou um pouquinho.

– Sem problemas, eu corrijo no banheiro quando a gente chegar.

Colocamos Hozier pra tocar e conversamos sobre nossos planos para o semestre que inclui nos mudarmos juntas para perto da faculdade, e sobre como vamos pegar matéria com o professor famoso por ser intragável. Conforme nos aproximamos do prédio, minha ansiedade é reduzida a zero. Um dia antes das férias começarem, eu terminei com o meu namorado, que também era meu melhor amigo e ele vem me ignorando desde então.

O campus está cheio de pessoas se reencontrando depois das férias, conversas animadas e abraços por todo lado. Seguimos juntas pelo mesmo corredor, mas no final dele nos separamos. Vou para o banheiro enquanto Bea entra na secretaria. Arrumo meu delineador, me borrando algumas vezes antes de ficar satisfeita. Saio apressada porque minha aula já deve estar começando. Abro a bolsa para jogar o vidrinho dentro e acabo esbarrando em um modelo alto, ruivo e com ombros infinitos.

– Ei! Cuidado ai, Houston. – Sua voz é rouca, baixa e pretensiosa.

– Ai, desculpa, eu estava, eu… – franzo o cenho confusa. – Você me chamou de Houston?

Ele abre um sorriso enorme e estende a mão pra mim. Faço um check up total em seu corpo, ele vai derrubar muitas calcinhas por aqui, mas não a minha.

– É só uma brincadeira. Eu sou Logan Gallagher.

Claro que é! Ele é um estereótipo perfeito: lindo, americano, talvez atleta, não muito inteligente, com certeza. Ignoro a mão estendida.

– Prazer em te conhecer, Logan Gallagher.

– E você é… – ele diz estendendo a frase.

– Melhor começar olhar por onde anda, Dallas. – ignoro-o passando por ele com um esbarrão no ombro. Bea está parada no corredor me olhando perplexa.

vinho de cereja … vinho de cereja

– Você! – acusa.

– O que? Foi um esbarrão, totalmente sem querer.

Ela avalia as costas do Logan, dando uma manjada em sua bunda.

– Mas você precisa admitir que ele é gato.

– É. – Reconsidero enquanto caminhamos para a nossa sala – Mas não é meu tipo.

– Ah, pelo amor de Deus! Ele é o tipo de qualquer mulher. A não ser que o seu tipo seja…

– Cala a boca! – a interrompo cobrindo sua boca com a mão. Olho ao redor, esperando não ter chamado atenção. – Por que ainda estamos falando sobre isso? E se vamos falar sobre tipos, a senhorita devia rever o seu.

Bea sabe exatamente do que estou falando, quer dizer… De quem estou falando. Ela ama me dar conselhos e incentivos, só esquece de segui-los. Desde o começo do semestre passado ela está enrolada com o Guga. Tipo, bem enrolada, daqueles rolos que não vão nem pra frente nem pra trás.

– Tá. Assunto encerrado. Nossa, que stress! – ela dá o braço a torcer.

Não quero falar sobre o meu tipo, na verdade essa é uma linha pouco definida na minha vida. Achei o Logan bonito, mas não seria minha primeira opção em uma balada, por exemplo. Ele tem tudo atraente demais, é alto e por eu ser baixinha, isso me intimida um pouco, é dono de um cabelo ruivo cuidadosamente despenteado, os olhos pequenos, porém conhecedores. Sua maior qualidade, infelizmente, é também o seu maior defeito: ele é bonito demais. E eu tenho zero confiança para ficar com um homem desses.

Isso me leva ao meu segundo tipo, que no caso seria meu ex-namorado Matheus. Nos conhecemos desde os oito anos de idade e havia uma segurança muito grande ali. Ele faz o tipo atleta, mas também é fofo. O corpo malhado, os olhos azuis e a cicatriz  no lábio superior que por algum motivo é sexy, fazem dele o cara que todas as garotas querem conhecer, querem andar de mãos dadas. Estou me sentindo estranha por terminado, é estranho não ser mais a segunda parte da frase Matheus e Giovana. Mas no final, havia um sentimento profundo que não era paixão. Eu entendi, ele não.

E o meu terceiro tipo, que é o motivo de eu ter tapado a boca da Bea, é Daniel. Talvez, ele seja o tipo com que eu mais devesse me preocupar, pois entre o flerte descarado do Logan e o jeito carinhoso do Matheus existe sua confiança silenciosa. Ele trabalhou com meu pai nas férias e eu morria todos os dias em que o via no prédio todo engravatado. Ele é veterano de direito, o corpo magro e totalmente proporcional morou nos meus sonhos mais sujos durante todo o verão.

vinho de cereja … vinho de cereja

Caminhamos em silêncio até encontrarmos nossa sala no final do bloco A e antes de entramos, Bea, me puxa pelo braço.

– Sério, não sei porque você ainda não chegou junto.

Eu sabia que ela não deixaria o assunto morrer.

– Ele nem sabe que eu existo – suspiro.

– Ele elogiou suas covinhas!

Verdade. Mas para ser justa, todo mundo elogia minhas malditas covinhas. Os elogios passam batidos, mas dessa vez não deu pra esquecer. Ficou gravado na minha mente e é a lembrança que me agarro todos os dias quando preciso de um alivio.

Eu estava esperando meu pai para almoçar. Shirlei, a secretária dele precisou ir ao banheiro e eu me sentei em sua mesa. Daniel entrou na sala roubando o meu fôlego, olhando para uma pasta. Quando levantou o olhar para mim, eu abri um sorriso e ele me espelhou, abrindo um sorriso tão cheio de dentes quanto o meu.

– O Dr. Ricardo está, covinhas?

Cinco palavras. Cinco palavras foi o que trocamos durante todo o verão e foram suficientes para incendiar a minha calcinha. Balanço a cabeça para afastar a lembrança porque sinto meu pescoço se aquecendo, mas Bea não está prestando atenção, seu olhar está fixado atrás de mim.

– O Matheus não para de te olhar.

Me viro a tempo de ver meu ex-namorado e pelo visto, ex-melhor amigo, desviar os olhos de mim e sair pro lado oposto com alguns amigos.

– Vamos pra aula – digo frustrada puxando Bea pelo braço. – O dia mal começou e já está cheio de drama.

No intervalo, saímos apressadas da sala porque Bea estava entrando em pânico com a aula de História da Arte. Vamos até a cantina, onde descobrimos que todas as atléticas se reuniriam para dar boas vindas aos calouros no chalé da cachoeira. Ninguém sabe ao certo de quem é esse chalé, boatos dizem que é de um cara que se formou anos atrás, mas no final isso não importa, é lá que rola as maiores festas da faculdade. Compro um cookie enquanto Bea procura uma mesa para sentarmos. Levo alguns segundos para localizá-la, pois ela já não está mais sozinha.

– Giovana! – Nossa amiga Carol me aperta em um abraço e abre espaço para eu me sentar entre as duas. – Então, como está sendo o primeiro dia de aula de vocês? Eu juro que se tiver que ouvir mais uma palavra sobre Ciência Política eu me dou um tiro! Vocês já deram uma olhada no Ruivinho Sensação?

Eu e Bea trocamos um olhar, reprimindo o sorriso. Mas, essa é a Carol, sempre falando sem parar e cumprimentando todas as pessoas possíveis. Ela possui as mesmas características que eu, talvez um pouco mais adulta sem as covinhas e as sardas, e ao passo que sou loira natural, o cabelo dela é tingido, mas ela é estonteante. Uma it girl, digna de Serena Van Der Woodsen. Carol está sempre por dentro de tudo, é efusiva, mas um pouco agressiva.

– O nome dele é Logan, está vindo do litoral e faz o quarto período de design gráfico – ela continua tagarelando.

– Nossa… Já coletou tudo isso? – Bea comenta.

Ela dá os ombros e morde um cookie como se não fosse nada demais.

– Bom, eu preciso passar na biblioteca antes de voltar pra aula, então… – anuncio, colocando minha mochila nas costas, mas Bea e Carol não estão prestando atenção em mim, seus olhares estão fixos por cima do meu ombro. Me viro e encontro Logan bem atrás de mim.

vinho de cereja … vinho de cereja

-Você deixou cair isso mais cedo – ele diz mostrando o vidrinho de delineador.

Ele está perto demais, de modo que eu preciso levantar o queixo para ver seu rosto e eu não gosto disso.

– Ah… Deve ter caído da minha bolsa. Obrigada.

– Não por isso. – Ele diz enfiando as mãos no bolso e dando mais um daqueles sorrisos idiotas. – E esqueceu de me dizer seu nome também.

Sorrio com seu atrevimento.

– Ei, você é o Logan, certo? – Carol se intromete. – Você está sabendo que vai rolar o encontro das atléticas hoje no chalé? Vai ser bem legal.

– Você vai? – ele se vira pra mim, ignorando-a.

– Estarei lá – confirmo.

(mais…)
@lumanunesblog [jr_instagram id="3"]